Pensamento apocalíptico foi precursor da crença em Jesus – 17/12/2025 – Darwin e Deus

Conforme prometido, começamos hoje a nossa jornada para tentar compreender como a tradição cristã formulou a ideia da divindade de Jesus. Antes de mais nada, porém, uma boa notícia para quem não conseguiu acompanhar os primeiros dez capítulos da série Como Deus Nasceu: agora contamos com um bom resumo em vídeo.

No último dia 5 de dezembro, tive o prazer de ser entrevistado pela colega Priscila Camazano no Como É que É?, programa da TV Folha, sobre o andamento dos episódios até aqui, e retomamos os principais pontos da história do monoteísmo israelita.

Após o resumo, um aviso preliminar importante: nós não vamos abordar a questão da historicidade de Jesus –o popular “Jesus Cristo existiu ou é só um mito?”– nesta série. A razão para isso é que o tema já foi exaustivamente explorado aqui no Darwin e Deus anos atrás. A resposta curta é que 99% dos historiadores da Antiguidade aceitam que o Nazareno foi uma figura histórica que realmente existiu. O consenso acadêmico é esse.

Mas nada tema: caso queira mais detalhes, fiz uma série de vídeos no passado a esse respeito. Você pode conferir a playlist inteira clicando aqui ou os três principais abaixo.

Vamos, enfim, a um pouco de contexto. É óbvio que muita coisa aconteceu entre a primeira formulação clara do monoteísmo judaico no fim do exílio na Babilônia (séculos 6º a.C. e 5º a.C.) e o ministério público de Jesus até mais ou menos o ano 30 d.C. Mas talvez seja possível resumir esses séculos todos citando dois fatores: 1) a continuidade do domínio imperial sobre a comunidade judaica; 2) a frustração das expectativas proféticas.

Ao longo de 500 anos, o antigo território israelita ficou sob domínio persa, depois se submeteu ao conquistador macedônio Alexandre, o Grande e passou os séculos seguintes sendo disputado por duas dinastias de seus sucessores, sediadas no Egito e na Síria, até cair, por fim, nas garras de Roma. Uma forma tênue de independência política judaica existiu por menos de um século (de 141 a.C. a 63 a.C.) quando a família sacerdotal dos Asmoneus ou Macabeus organizou uma revolta bem-sucedida, mas isso já era memória distante quando Jesus nasceu.

Textos tardios da Bíblia Hebraica e outros que não entraram em seu cânone (a lista de livros bíblicos oficiais) continuavam a ser produzidos. Eram obras que tinham de lidar com o fato de que as promessas de paz perpétua e universal e da restauração do trono do rei David, feitas pelos profetas mais antigos, não tinham se realizado. Os judeus estavam cada vez mais integrados a um mundo cosmopolita de língua grega que, em muitos casos, enxergava com desprezo e hostilidade sua fé ancestral.

Uma das reações foi a criação da linguagem apocalíptica (em grego, “revelação”). Com cenas aparentemente fantasiosas que o saudoso Dale Martin, professor de Novo Testamento da Universidade Yale (EUA), já comparou a “Star Wars”, as narrativas apocalípticas apresentam uma linguagem cifrada e simbólica sobre a conflagração cósmica definitiva entre a luz e as trevas. Seu grande exemplo na Bíblia Hebraica é o livro de Daniel, provavelmente escrito no início da revolta dos Macabeus.

Além do simbolismo exuberante, com monstros, dragões e grandes batalhas, os textos apocalípticos se caracterizam também pela presença de seres benfazejos e poderosos, intermediários entre Deus e o povo perseguido de Israel. Muitos deles são anjos, que recebem de Iahweh (agora quase sempre chamado de “o Senhor”) uma posição semelhante à de vice-rei ou segundo em comando.

Mas o livro de Daniel introduz uma figura mais misteriosa, “um como Filho de Homem”, que receberia das mãos de Deus o poder supremo e um reino eterno no fim dos tempos. “Filho de Homem”, na tradição hebraica, significava originalmente apenas “ser humano”. Mas a expressão fomentou em alguns círculos judaicos a ideia de que se tratava de outra classe de ser sobrenatural vindouro. E passaria a designar o próprio Jesus, como veremos no próximo episódio, que abordará como a crença na ressurreição de Cristo moldou a percepção sobre ele nas primeiras décadas cristãs. Até lá!


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Fonte: Link da fonte

Tags

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore