Pesquisa paranormal mudou a maneira como fazemos ciência – 27/08/2026 – Ciência

Você já pensou, às vezes, que gostaria de ter poderes telepáticos ou outros poderes sobrenaturais?

Há cerca de cem anos, algumas das maiores mentes da filosofia e da ciência diziam acreditar que existiam pessoas com essas habilidades. Na verdade, chegaram a sugerir que talvez cavalos e cães também pudessem tê-las.

Na virada do século 20, muitos grandes cientistas, psicólogos e filósofos ficaram fascinados com a possibilidade de “fenômenos psíquicos”, como telepatia, clarividência ou fantasmas. Muitos deles, como J.J. Thomson, vencedor do Prêmio Nobel de Física em 1906, realizaram experimentos para testar médiuns. Outros, como o filósofo C.D. Broad, participaram de sessões espíritas e refletiram sobre a possibilidade da precognição —a capacidade de prever eventos futuros.

Esses não eram apenas charlatões marginais. Muitos deles tiveram impacto na filosofia e na ciência do século 20. Muitos dos conceitos sobre os quais a filosofia do tempo ainda discute hoje remontam a C.D. Broad, como a Teoria do Bloco Crescente, que afirma que o passado é real, o presente é real, mas o futuro ainda não existe.

A maior parte do foco deles estava nas habilidades psíquicas dos seres humanos. Mas alguns desses “pesquisadores psíquicos” foram ainda mais longe e começaram a questionar a possibilidade de telepatia em animais.

O filósofo Friedrich Canning Scott Schiller (1864-1937), que passou a maior parte de sua carreira na Universidade de Oxford, foi um membro ativo da Sociedade para Pesquisa Psíquica (SPR, na sigla em inglês). Ele foi um dos fundadores do pragmatismo, a visão filosófica de que a veracidade de uma teoria pode ser avaliada com base em sua eficácia na prática.

Schiller participou de acaloradas discussões sobre as habilidades psíquicas dos animais. Seu artigo sobre “pesquisa psíquica” para a Enciclopédia Britânica contém uma seção sobre “matemáticos equinos” —cavalos com supostas habilidades matemáticas paranormais, que demonstravam batendo com os cascos para dar as soluções de equações.

Em 1914, Schiller escreveu um artigo para a SPR sobre Rolf, “o cão pensante de Mannheim” (no sudoeste da Alemanha).

Rolf era conhecido por sua capacidade de bater com a pata para dar respostas a problemas matemáticos. E, com a ajuda de um código ortográfico para letras e sílabas, Schiller chegou a afirmar que o cão conseguia produzir frases inteiras.

Em uma ocasião, Schiller alegou que o cão professou sua fé católica a um padre.

O caso de Rolf (e de outros “cães pensantes” que de repente começaram a aparecer em outros lugares) causou um dilema para os pesquisadores do paranormal. Alguns achavam que isso provava que os animais têm poderes intelectuais ocultos, assim como os humanos. Outros, como o cientista russo Vladimir Bechtereev, sugeriram que tudo isso poderia ser explicado pela telepatia.

Bechtereev fez descobertas importantes sobre a memória e a estrutura cerebral. Na sua opinião, o tutor do cão havia comunicado telepaticamente todas as informações a ele.

Schiller dizia acreditar que sua teoria do pragmatismo poderia ajudar a resolver essas disputas. Ele achava que não adiantava discutir essas questões de forma abstrata. O que importa é se alguma dessas teorias pode demonstrar ter consequências práticas para o comportamento do animal. Se Rolf era realmente tão habilidoso em aritmética, por que ele não usa a matemática na vida cotidiana? E se ele é um católico praticante, por que não vai à igreja?

Joseph Banks Rhine (1895-1980) e sua esposa, Louisa (1890-1983), são amplamente considerados os fundadores do controverso campo da parapsicologia. Eles publicaram o influente livro “Extra-Sensory Perception” (1934) e fundaram o Laboratório de Parapsicologia da Universidade Duke, hoje já fechado. Sua abordagem, que consistia em utilizar um grande número de testes com vários participantes, esteve intimamente ligada à estatística moderna.

Em 1929, os Rhines publicaram um artigo sobre a égua Lady Wonder. Aparentemente, essa égua era capaz de fazer previsões, resolver problemas matemáticos e dizer as horas, tudo isso tocando com o focinho em blocos com letras e números.

O mais famoso desses cavalos com talento para a matemática, no entanto, foi Clever Hans. Assim como Lady Wonder nos Estados Unidos, Hans atraía enormes multidões em sua terra natal, a Alemanha, que estavam ansiosas para testemunhar suas habilidades aritméticas. Entre elas estavam pesquisadores do campo do paranormal, curiosos para saber se Hans possuía poderes sobrenaturais, bem como Carl Stumpf (1848-1936), um dos pais da psicologia moderna.

Foi o assistente de pesquisa de Stumpf, Oskar Pfungst, que acabou descobrindo a origem dos poderes milagrosos de Hans. Pfungst observou que Hans só conseguia dar a resposta correta quando seu tutor, que estava por perto, sabia a resposta à pergunta feita –e somente quando Hans podia vê-lo.

Isso levou Pfungst a concluir que Hans estava simplesmente respondendo a sinais involuntários de seu tutor, sinais que o próprio tutor nem sequer percebia que estava emitindo. Pfungst descobriu, assim, o chamado efeito Hans Esperto. Isso descreve situações em que a má concepção de um experimento faz com que o pesquisador influencie involuntariamente os participantes que está estudando.

A explicação de Pfungst eliminou a necessidade de recorrer a habilidades sobrenaturais e contribuiu parcialmente para o desaparecimento gradual da pesquisa psíquica das universidades. Assim como muitos outros fenômenos psíquicos, a psicologia moderna conseguiu explicar o que estava acontecendo.

Embora tenha ficado claro que esses cavalos e cães não possuíam tais habilidades matemáticas, os estudos conduzidos por pesquisadores psíquicos ajudaram a revelar novos conhecimentos. Um exemplo surpreendente é o desenvolvimento da randomização em experimentos.

Randomização significa decidir a ordem ou a alocação de elementos em um experimento por acaso, em vez de permitir que o pesquisador ou participante escolha. Hoje, ela é parte fundamental de um bom projeto experimental, pois ajuda a evitar que as expectativas influenciem os resultados. Surpreendentemente, as tentativas de testar a telepatia ajudaram a impulsionar seu desenvolvimento. Os pesquisadores perceberam que, se as pessoas soubessem qual resposta era esperada, mesmo pequenas pistas inconscientes poderiam afetar o resultado.

O caso de Clever Hans e de outros animais “telepáticos” mostra quão turbulento foi esse período para a ciência e a filosofia modernas. De repente, o telefone tornou possível entrar em contato com alguém do outro lado do mundo, e o raio-X permitiu ver o interior do corpo. Portanto, talvez não seja tão surpreendente que algumas das mentes mais inteligentes do mundo tenham começado a investigar a telepatia em animais.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.

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