No ano passado, durante uma temporada que passei na Blavatnik School of Government, na Universidade de Oxford, ouvi de uma professora britânica uma pergunta que ficou comigo. Ela contou que, na primeira vez em que foi ao Brasil, saiu do aeroporto, olhou para a desigualdade à sua volta e pensou “por que não há uma revolução neste país?”.
No fundo, quanto mais se conhece a desigualdade brasileira, mais interessante essa pergunta fica.
Somos um país no qual o lugar em que uma criança nasce continua tendo enorme influência sobre o lugar a que ela conseguirá chegar. Pessoas que vivem a poucos quilômetros umas das outras frequentam mundos distintos e enxergam futuros distintos.
E seguimos convivendo.
Desenvolvemos essa enorme capacidade de administrar desigualdades sem transformá-las. Mas a tensão existe. E, no meio dela, cada grupo procura uma saída particular para problemas que, em sua essência, são baseados no conflito distributivo.
É possível que esteja aí um dos principais motivos da persistência da desigualdade brasileira. Em vez de produzir algum consenso e uma grande ruptura, ela vai dividindo os brasileiros.
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O desafio fica mais sério quando essas distâncias deixam de ser apenas econômicas e mudam a maneira como as pessoas enxergam umas às outras e as instituições.
Pense em quem trabalha durante décadas, acorda cedo, enfrenta horas de transporte e faz tudo aquilo que lhe disseram ser necessário para melhorar de vida. Os anos passam e a vida quase não muda. Olhando ao redor, essa pessoa percebe que conexões familiares e origem social continuam abrindo portas que o esforço sozinho dificilmente abre.
Existe um momento em que a pergunta deixa de ser “por que eu ainda não consegui?” e começa a se transformar em “esse jogo funciona para pessoas como eu?”.
Essa passagem é muito relevante para uma democracia. Instituições dependem de alguma crença compartilhada nas regras. As pessoas aceitam decisões com as quais discordam porque acreditam que continuam fazendo parte do mesmo jogo.
Se essa crença enfraquece, muda a natureza do conflito político. O adversário deixa de ser alguém com outra visão de país e passa a parecer um inimigo que está retirando algo que deveria ser seu. A política vira uma disputa sobre quem ganha e quem perde.
Esquerda e direita oferecem explicações diferentes para essa frustração, mas em muitos momentos tentam interpretar a mesma sensação de que alguma coisa no país deixou de funcionar.
Porém, no final do dia, revoluções exigem mais do que pessoas frustradas. Exigem algum sentimento compartilhado sobre a origem do problema e alguma capacidade de ação coletiva. O Brasil tem muitos grupos frustrados, e suas frustrações apontam em direções diferentes.
Todos sentem que estão perdendo alguma coisa. Poucos concordam sobre o motivo.
Nesse ambiente, a desigualdade sobrevive justamente porque a insatisfação que ela produz permanece dividida. E existe algo profundamente brasileiro nisso. Em vez de uma grande ruptura, convivemos com pequenas rupturas, crises políticas recorrentes, explosões periódicas de indignação e mudanças bruscas do humor social.
O país não explode. Ele vai se desgastando. Mas até quando?
O texto dessa coluna representa a continuação da série baseada no meu novo livro, Os custos das desigualdades – Uma carta às elites, e uma homenagem à música O Dia Em Que O Morro Descer E Não For Carnaval, de Wilson das Neves.
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