O físico Iñaki Echeverría-Huarte, da Universidade de Navarra (Espanha), estava estudando se as pessoas mantêm uma certa distância entre si ao caminhar quando notou algo estranho. Em cerca de 40 experimentos, a maioria dos participantes desviava espontaneamente para a esquerda.
A observação não tinha nada a ver com a pesquisa original dele, mas gerou curiosidade. “Foi o primeiro sinal de que algo estranho estava acontecendo”, disse Echeverría-Huarte.
O físico e seus colegas presumiram que deveria haver uma explicação simples. Talvez o layout da sala, por exemplo, estivesse sutilmente direcionando as pessoas para a esquerda. Eles iniciaram o que pensavam ser uma investigação fácil para descobrir por quê.
O que descobriram, conforme relatado neste mês na revista Nature Communications, é uma tendência inata de pessoas de diferentes perfis demográficos, culturas e condições de desviar no sentido anti-horário.
“Em princípio, não há razão para o fato de as pessoas preferirem girar no sentido anti-horário”, afirmou o físico Iker Zuriguel, da Universidade de Navarra, coautor do estudo. No entanto, está claro que elas preferem.
Zuriguel e Echeverría-Huarte primeiro buscaram na literatura científica uma explicação para o motivo disso acontecer. Eles localizaram um estudo mostrando que pessoas perdidas geralmente andam em círculos, porém o trabalho não especificava a direção.
A dupla encontrou outro estudo mostrando que, quando as pessoas se deparam com uma parede, os destros tendem a virar à esquerda e os canhotos fazem o oposto. A maioria dos participantes desse experimento era destra, então “no momento em que vimos isso, dissemos: ‘Ok, temos uma resposta'”, afirmou Zuriguel.
Os pesquisadores conduziram seu próprio experimento. Separaram os participantes de acordo com a direção para a qual viravam —esquerda ou direita— ao se aproximarem de uma parede. Em seguida, pediram a eles que caminhassem ao redor de uma pequena arena. Para surpresa dos pesquisadores, independentemente da preferência dita anteriormente, a maioria escolheu a esquerda.
Essa descoberta os levou a mais cinco experimentos, cada um testando uma hipótese diferente e envolvendo um total de 573 participantes. Repetidas vezes, encontraram o mesmo resultado. Em um pátio escolar aberto, por exemplo, os pesquisadores instruíram os participantes a circular livremente enquanto um drone registrava seus movimentos. Em questão de segundos, 80% das pessoas estavam se movendo no sentido anti-horário. “É uma tendência que surge quase imediatamente”, disse Echeverría-Huarte.
Echeverría-Huarte e seus colegas se perguntaram se o comportamento poderia estar emergindo coletivamente, de forma semelhante a como pedestres se dividem em duas faixas de sentidos opostos em calçadas lotadas. Mas, quando testaram os participantes sozinhos, 75% ainda se moviam no sentido anti-horário, sugerindo que a tendência é individual.
Haveria fatores culturais por trás dessa preferência? Pedestres, por exemplo, normalmente caminham do mesmo lado em que os carros trafegam em seu país. Então a equipe realizou experimentos no Japão. Os pesquisadores mais uma vez observaram os participantes se movendo no sentido anti-horário.
Por fim, eles se perguntaram se alguma convenção social não reconhecida, internalizada em adultos, mas ainda não presente em crianças, poderia estar em jogo. Eles entraram em contato com pesquisadores que haviam conduzido um estudo anterior em um jardim de infância japonês, no qual 52 crianças se moviam aleatoriamente enquanto uma música tocava. Os pesquisadores japoneses compartilharam seus vídeos das crianças para análise, revelando que a maioria delas também se movia no sentido anti-horário.
Enrico Ronchi, que desenvolve modelos de evacuações de emergência na Universidade de Lund (Suécia) e não participou da pesquisa, disse que as descobertas “abrem muitas novas e interessantes possibilidades no campo da dinâmica de multidões”. Ele gostaria de ver, por exemplo, se a tendência anti-horária se mantém entre pessoas com deficiência ou em evacuações de emergência.
Karol Bacik, matemático aplicado do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (Estados Unidos) que também não participou da pesquisa, disse que o achado desafia nossa compreensão da locomoção humana. “A tendência anti-horária pode ter consequências de longo alcance para o tráfego cotidiano de pedestres, mas simplesmente ainda não as procuramos.”
Zuriguel e Echeverría-Huarte planejam investigar novas hipóteses sobre a tendência anti-horária usando biomecânica, realidade virtual, neurociência ou até mesmo comportamento animal. “Os peixes são o animal canônico que se move em círculos”, disse Zuriguel. “Mas, eles preferem girar em uma direção ou outra, eu não sei.”
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