Patrice Tosi cresceu entre histórias de trabalho, disciplina e construção. Filha de uma carioca e de um empreendedor do interior de São Paulo, acompanhou de perto a formação da Indústrias Tosi, empresa especializada em climatização e soluções térmicas, e que, décadas depois, se tornaria referência no setor de ar-condicionado. A fábrica no bairro do Tatuapé, fundada por seu pai José Daniel Tosi e seu cunhado Mário Lantery em 1954, não era apenas um negócio, mas parte da dinâmica familiar.
Ao ingressar na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em 1980, Patrice já estava profundamente envolvida com a rotina da fábrica. Mais tarde, buscou especialização em Marketing, identificando na área um caminho estratégico para sua atuação nas Indústrias Tosi.
Em um ambiente predominantemente masculino, construiu sua autoridade com base em preparo e consistência. A empresa participava de feiras internacionais nos Estados Unidos e na Alemanha, e Patrice decidiu, por iniciativa própria, estudar alemão intensivamente para ampliar sua presença nos negócios. O movimento, inicialmente visto como ousado, se consolidou como diferencial. Desde então, passou a representar a companhia nesses eventos com frequência.
Ao longo da carreira, enfrentou desafios típicos de um setor ainda marcado por práticas tradicionais. Em muitas situações em que estava presente, era uma das poucas mulheres. Ainda assim, nunca se deixou intimidar. Fez da competência e do conhecimento suas principais ferramentas de afirmação.
Sua formação acadêmica teve papel decisivo nesse processo. Entre os irmãos, Marcelo e Marcio, sendo ela a primogênita, foi a única a concluir uma graduação, fator que lhe trouxe segurança técnica para sustentar suas decisões. Em um ambiente em que o marketing ainda era pouco explorado, sua especialização abriu espaço para novas estratégias dentro da empresa.
O caminho, no entanto, não foi isento de resistência. Em determinados momentos em que precisou se posicionar, enfrentou dificuldade para ser ouvida, inclusive dentro do próprio ambiente familiar. Ainda assim, persistiu. Buscou atualização constante, participou de conselhos e associações voltados à liderança feminina e manteve o compromisso de realizar novos cursos anualmente.
Essa postura foi determinante em um dos momentos mais críticos da empresa. Em 2018, as Indústrias Tosi entraram em recuperação judicial. Em meio à instabilidade, Patrice assumiu protagonismo. Realizou transmissões ao vivo a partir da fábrica, por meio de canais digitais, direcionadas a clientes e parceiros. Também manteve presença em feiras do setor e reforçou a visibilidade da marca, mesmo diante de limitações financeiras.
Em um cenário em que o mercado duvidava da continuidade da empresa, ela sustentava uma narrativa de presença e resiliência. O esforço contribuiu para reposicionar a companhia e recuperar a confiança do setor. O reconhecimento veio em forma de premiações, incluindo o título de Personalidade do Ano pela Revista do Frio, no Prêmio Oswaldo Moreira, em 2019, concorrendo com executivos de grandes multinacionais.
A resiliência se consolidou como um dos pilares de sua trajetória. Patrice não associa liderança à ausência de dificuldades, mas à capacidade de seguir em frente apesar delas. Em diversos momentos, considerou desistir. Ainda assim, manteve o compromisso com o legado construído por sua família e com o seu próprio.
Seu estilo de liderança se baseia na conexão. Diferente da ideia de que liderar é um exercício solitário, construiu uma rotina marcada por diálogo constante, troca de ideias e interação com diferentes públicos. Para ela, liderança acontece na relação com as pessoas.
Ainda assim, reconhece a existência de uma solidão mais silenciosa. Aquela que surge ao ocupar posições em que poucas mulheres estão presentes. Em um episódio simbólico em que foi nomeada diretora da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, em 2023, percebeu a ausência de reconhecimento familiar. Para ela, esse tipo de situação revela um machismo menos explícito, mas igualmente presente.
Mesmo diante desse contexto, segue ampliando seu horizonte. Defende que sobrenome não sustenta resultados. O que realmente importa é a capacidade de executar, aprender e evoluir continuamente. Esse princípio orienta também suas decisões na área comercial, em que valoriza profissionais com disposição para agir e construir resultados concretos.
Com um perfil dinâmico, mantém uma rotina intensa. Leitura constante, interesse por diferentes áreas do conhecimento e participação ativa em eventos fazem parte de seu dia a dia. Para ela, aprendizado contínuo não é diferencial, é requisito.
Em um mundo em transformação acelerada, acredita que a atualização permanente é indispensável. Defende modelos de formação que combinem teoria e prática e reforça a importância da educação como ativo intransferível. Entre leituras clássicas e contemporâneas, acumula repertório não apenas técnico, mas humano, fundamental para a construção de relações e decisões mais consistentes.
Ao longo da trajetória, Patrice consolidou uma visão clara. Liderar não é ocupar um cargo, mas sustentar uma postura. Em um ambiente em que muitas vezes a vulnerabilidade é interpretada como fraqueza, aprendeu a se posicionar com firmeza, sem abrir mão da autenticidade.
Sua história mostra que, mais do que resistir, é preciso construir todos os dias. Mesmo quando o reconhecimento não é imediato. Mesmo quando o cenário é adverso.
Porque, no fim, é a consistência, e não o contexto, que define a força de uma liderança.
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