A indústria do whisky pode enfrentar uma espécie de ressaca antes mesmo de a garrafa chegar ao copo.
Mais de 100 funcionários da Diageo na Escócia planejam entrar em greve por três semanas a partir de 28 de setembro.
A paralisação ameaça interromper a fabricação do destilado usado em algumas das principais marcas da companhia, como Johnnie Walker, Bell’s e Haig.
O movimento ocorrerá na Cameronbridge, maior destilaria de grãos da Europa, em protesto contra a eliminação de dez postos de trabalho.
Segundo a Diageo, oito funcionários seriam efetivamente afetados, já que duas vagas estão desocupadas.
A paralisação é a primeira desde que Dave Lewis assumiu o comando da Diageo, em janeiro, com a missão de cortar custos.
O executivo, ex-presidente da Tesco e apelidado de “Drastic Dave” por sua política agressiva de redução de despesas, estabeleceu uma meta de US$ 1 bilhão em economias.
A Diageo reduziu sua força de trabalho em quase 2 mil pessoas no último ano. Ao fim de junho, tinha 27.938 funcionários e havia desembolsado US$ 514 milhões em indenizações relacionadas a demissões.
O sindicato Unite acusa a companhia de não ter consultado adequadamente os trabalhadores e de fornecer poucas informações sobre os cortes.
A entidade também levantou preocupações sobre segurança caso a equipe seja reduzida sem uma diminuição correspondente no volume produzido.
A Diageo afirma que a medida é necessária porque a Cameronbridge opera em ritmo menor e deve manter níveis reduzidos de atividade nos próximos anos.
A companhia diz ainda que há outras funções disponíveis para os afetados e que as negociações com os sindicatos continuam.
A disputa ocorre em meio a uma estratégia mais ampla para reduzir estoques e direcionar investimentos para áreas de maior crescimento.
A Diageo também interrompeu temporariamente a atividade em outras unidades escocesas enquanto ajusta a oferta de whisky à demanda.
Enquanto aperta o cinto de um lado, a empresa abre a torneira de outro.
A companhia prometeu investir US$ 1 bilhão para ampliar a produção de Guinness, cujas vendas cresceram 12% no último ano. A economia obtida com o programa de redução de custos deve ajudar a bancar o investimento.
Os resultados divulgados em agosto mostram a pressão sobre os negócios. A receita caiu 3%, para US$ 19,6 bilhões, enquanto o lucro operacional recuou 27%, para US$ 3,2 bilhões.
Lewis atribuiu parte da fraqueza das marcas de destilados aos preços elevados após a pandemia. Segundo o executivo, a precificação havia ficado “um pouco fora de sintonia” com o mercado. A redução de preços de marcas como Bell’s, afirmou, já ajudou a recuperar os volumes de vendas.
Por enquanto, a ameaça está mais na fábrica do que na prateleira. Mas, se a greve parar Cameronbridge, o whisky pode ganhar uma ressaca antes mesmo de ser servido.
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