Realizando um tipo de experimento nunca antes tentado fora da Terra, o rover Curiosity da Nasa identificou mais compostos orgânicos em Marte enquanto cientistas se esforçam para descobrir se o Planeta Vermelho já abrigou vida.
O rover identificou que 5 dos 7 compostos orgânicos em rochas formadas no leito seco de um lago próximo ao equador do planeta nunca haviam sido identificados anteriormente em Marte, disseram os pesquisadores. O experimento também indicou a presença de outro composto orgânico com estrutura semelhante a precursores do DNA, a molécula que carrega informações genéticas em organismos vivos em nosso planeta.
Compostos orgânicos, moléculas compostas principalmente de átomos de carbono ligados a outros elementos, formam a base estrutural de toda a vida na Terra. O total identificado em Marte agora chega a dezenas. Os cientistas observaram, no entanto, que todos esses compostos podem ter se formado por processos não biológicos.
Assim como a Terra e os outros planetas do sistema solar, Marte se formou há aproximadamente 4,5 bilhões de anos. No início de sua história, Marte era mais quente e úmido do que o lugar frio e árido que é hoje. Os pesquisadores estimaram que a rocha amostrada pelo rover —sedimento depositado por água corrente— data de pelo menos 3,5 bilhões de anos atrás.
“Ainda não podemos afirmar que Marte já abrigou vida, mas nossas descobertas reforçam as evidências de que Marte era um mundo habitável na época em que a vida na Terra surgiu”, disse a astrobióloga e cientista planetária Amy Williams, da Universidade da Flórida, membro da equipe científica do Curiosity e autora principal do estudo publicado nesta terça-feira (21) na revista Nature Communications.
Identificar definitivamente evidências de vida passada atualmente exigiria trazer amostras de rochas de volta à Terra para análise.
“Para deixar claro, não encontramos evidências de vida com este estudo, mas estamos refinando ainda mais as moléculas fundamentais que estavam presentes em Marte”, disse Williams.
O Curiosity pousou na cratera Gale, formada por um antigo impacto na superfície marciana, em 2012. Ele conduziu o experimento agora descrito em 2020, em uma região da cratera chamada Glen Torridon, onde a abundância de minerais argilosos mostra que água esteve presente no passado. Se a vida microbiana algum dia surgiu em Marte, corpos d’água teriam sido um habitat provável.
Minerais argilosos podem preservar moléculas orgânicas melhor do que outros minerais, tornando-os um bom alvo para encontrar tais compostos, disse Williams.
O experimento foi conduzido pelo instrumento SAM (sigla em inglês para Análise de Amostras de Marte). O rover perfurou a rocha-mãe em um local chamado “Mary Anning”, em homenagem a uma paleontóloga inglesa do século 19. A amostra de rocha em pó foi então depositada em um pequeno recipiente contendo um produto químico que decompõe matéria orgânica complexa em pedaços menores que podem ser detectados pelo instrumento SAM.
“Este estudo confirma que matéria orgânica maior e mais complexa, chamada carbono macromolecular, está presente e preservada próximo à superfície da rocha-mãe de Marte, apesar das condições severas de radiação do planeta. O experimento também produziu moléculas orgânicas menores a partir desse processo de decomposição que não haviam sido vistas em Marte antes”, disse Williams.
“O rover Curiosity foi construído para buscar ambientes habitáveis, lugares onde a vida gostaria de viver se algum dia surgisse em Marte. Este estudo contribui para essa narrativa, de que os ambientes marcianos eram habitáveis no passado antigo e tinham os ingredientes para a vida como a conhecemos”, disse Williams.
Cientistas anunciaram no ano passado que uma amostra de rocha obtida por outro rover da Nasa, o Perseverance, em uma cratera diferente, continha características que podem ter sido produzidas quando a rocha estava se formando por reações químicas envolvendo micróbios.
Os rovers da Nasa têm estado na vanguarda da compreensão da habitabilidade marciana, incluindo a descoberta de compostos orgânicos.
“Embora não possamos dizer se essa matéria orgânica veio de processos geológicos, queda de meteoritos ou vida, nosso trabalho sugere que, se matéria orgânica complexa proveniente de vida foi preservada em Marte, deveríamos ser capazes de detectá-la com os instrumentos atuais e futuros dos rovers”, disse Williams.
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