Quem diz que o jornal impresso morreu deveria acompanhar Mark Frost, fundador do The Chronicle, de Glens Falls, em Nova York, em suas entregas nas manhãs de quinta-feira.
Enquanto Frost circula em um Subaru Forester abarrotado de jornais, leitores fiéis aguardam nos pontos de distribuição. Um deles é William Norton, 74, que pega 40 exemplares do jornal gratuito para seus vizinhos em Stony Creek.
“É só isso que eles têm para ler por lá”, disse Norton.
É comum as pessoas saírem levando pilhas do Chronicle, tanto que Frost passou a perguntar sobre suas intenções. Afinal, imprimir é caro, e ele quer que cada exemplar chegue a um leitor. “Outro dia, um sujeito chegou a me dizer: ‘Estou embalando uns vidros’”. Ele pegou os jornais de volta.
As angústias de Frost são comuns a uma aguerrida categoria de publicações espalhadas pelo país. Embora quase 3.500 jornais tenham deixado de circular desde meados dos anos 2000, cerca de 2.250 publicações como o Chronicle —jornais independentes, às vezes familiares— têm sido “relativamente resilientes”, afirmou Zach Metzger, diretor de um projeto da Universidade Northwestern sobre a imprensa local.
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O contato direto é um fator fundamental. Frost passou décadas cultivando leitores pessoalmente. Ele agradece a todos que vê pegando um exemplar do Chronicle. “Pense no impacto disso”, disse.
“Eu diria que a maioria dos contatos que tenho com cidadãos engajados vem de pessoas que dizem ter lido alguma coisa no Chronicle”, afirmou Diana Palmer, prefeita de Glens Falls. Os anunciantes relatam uma dinâmica semelhante.
Toda essa influência est á por um fio. O Chronicle já esteve próximo da falência. A pandemia quase afundou o negócio, forçando uma rodada de demissões que reduziu a equipe de 12 para quatro pessoas.
Com a recuperação dos anunciantes, o Chronicle também se reergueu e agora conta com sete funcionários. Uma edição sobre as formaturas do ensino médio, publicada em junho e com 44 páginas, foi a mais robusta em seis anos. “De algum modo”, disse Frost, “conseguimos atravessar o tempo”.
Se há algo que o Chronicle de Frost não tolera, é uma afronta ao orgulho de Glens Falls, cidade de aproximadamente 15 mil habitantes que recebeu da revista Look, na década de 1940, o apelido de “a cidade natal dos Estados Unidos”.
Quando o filme “12 Anos de Escravidão”, de 2013, estreou sob aclamação da crítica, Frost o atacou por não destacar o papel de Glens Falls na vida de Solomon Northup, um homem negro livre que foi sequestrado e vendido como escravizado antes de reconquistar a liberdade e escrever um livro de memórias em 1853.
“Saratoga Springs recebe aplausos, quando tudo o que aquela cidade fez foi apresentar Solomon aos homens que o sequestraram”, escreveu Frost.
Esse apego tem uma história. Frost nasceu em Glens Falls, estudou nas escolas da cidade e começou a escrever para o extinto Glens Falls Times ainda no ensino fundamental. Depois de passar por diferentes empregos no jornalismo, fundou o Chronicle em 1980, com um investimento de US$ 1.700.
O jornal reforça a identidade local. Em uma seção intitulada “School Views”, o Chronicle pedia que crianças respondessem a uma pergunta. A primeira era se elas gostavam da escola. Um aluno do terceiro ano escreveu: “Mark, você gostava da escola quando tinha nove anos?”.
A seção continua existindo. Sadie Palmer, recém-formada na Glens Falls High School e filha da prefeita, lembra ter ficado “superempolgada” quando o jornal publicou seu pequeno texto na época do ensino fundamental. “Pegávamos o Chronicle, recortávamos a matéria e a colocávamos na geladeira”, recordou.
As escolas são um dos pilares do jornalismo do Chronicle, ao lado de reuniões da prefeitura e acontecimentos no comércio local. Uma edição recente destacou a decisão da fábrica Finch Paper, uma importante empresa regional, de deixar de produzir a própria celulose, além de uma reportagem sobre o quadro de funcionários da prisão local. Cada edição também traz uma dose de excentricidade, como uma nota sobre o mais recente ataque de cascavel ou uma matéria sobre como esquartejar um cervo.
Outra constante é a cobertura otimista da inauguração de restaurantes, bares e lojas. O entusiasmo também se estende ao próprio jornal, que dá grande destaque a edições de aniversário nas quais seus anunciantes pagam para parabenizá-lo.
“Nosso jornal está mais interessado em quem está progredindo do que em quem está fazendo besteira”, escreveu Frost em 2020.
Frost também usufrui de privilégios de editor. Quando a F.W. Webb Co. tentou instalar uma unidade perto de sua casa, ele publicou uma carta contrária ao projeto —escrita por sua mulher e editora assistente, Sandra Hutchinson. Em sua coluna semanal, reconheceu que se tratava de uma “questão ética”.
Em seus editoriais, Frost parece determinado a frustrar qualquer tentativa de classificar suas opiniões políticas. Antes da eleição presidencial de 2024, recusou-se a apoiar Kamala Harris ou Donald Trump. “Ao menos todos concordam quanto à grande questão: nossa própria democracia está em perigo”, escreveu. “Mas quem representa a maior ameaça?”
“Se você me perguntasse qual é a filiação política de Mark, eu simplesmente não saberia dizer”, afirmou a deputada Elise Stefanik, republicana cujo distrito inclui Glens Falls. Frost apoiou Stefanik repetidas vezes, mas já havia apoiado uma candidata do Partido Verde na eleição de 2014.
UM MODELO DE NEGÓCIOS PRECÁRIO
Os anunciantes do jornal são empresas locais, e seus anúncios são distribuídos em 20 mil exemplares impressos e em uma réplica digital enviada por e-mail a 20 mil destinatários. “Às quintas-feiras, as pessoas vêm, sentam-se para comer um cachorro-quente e ler o Chronicle”, disse Alexandria Gazetos Mineo, que administra um restaurante, o New Way Lunch.
Ao longo dos anos, Frost recusou propostas para reproduzir o modelo do Chronicle em outras comunidades. “Meu compromisso é com este lugar”, disse. Frost já exerceu todas as funções do jornal, com exceção da contabilidade e da tecnologia da informação.
Mas Frost tem 75 anos, e sua ambição logo será responsabilidade de outra pessoa. É nesse ponto que jornais do nicho do Chronicle muitas vezes tropeçam, afirmou Metzger. “Ninguém está realmente se apresentando para assumir ou comprar” esses jornais, disse ele.
O Chronicle talvez seja uma exceção. Zander Frost, 34, filho de Mark Frost e Hutchinson, teve sua carreira em um grupo de comédia de Los Angeles interrompida durante a pandemia de Covid-19. Voltou à cidade natal e viu o pai percorrendo sozinho uma exaustiva rota de entregas. Ofereceu-se para acompanhá-lo.
A partir daí, mergulhou no jornal. Vendeu anúncios, começando com promoções de US$ 49 para a edição sobre as formaturas do ensino médio. Reformulou a tecnologia usada para processar anúncios e manter as contas em ordem, escreveu e editou matérias e trabalhou com a mãe em recursos humanos, questões jurídicas e contratações.
Seus pais abordam com cautela o futuro do Chronicle, preocupados em não pressionar o filho. “Quando você faz parte de uma empresa familiar, é algo, tipo, muito profundo”, disse Zander Frost.
Ainda assim, a expectativa no Chronicle é que um dia ele assuma o comando. “O plano de sucessão”, disse ele, “sou eu”.
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