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Variedade de línguas cresce onde há menos variação no DNA – 06/06/2026 – Reinaldo José Lopes

Dizia J.R.R. Tolkien (1892-1973), um dos maiores linguistas de sua época que, nas horas vagas, acabou escrevendo “O Senhor dos Anéis”, que a história da linguagem humana provavelmente é mais complexa que a trajetória biológica da nossa espécie. Desconfio que ele estivesse certo, mas a afirmação, de qualquer modo, deixa de lado uma variável importante: as situações em que essas histórias acabam interagindo entre si, e que estamos só começando a elucidar.

OK, é claro que, sob muitos aspectos, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Um bebê angolano adotado por chineses e uma criancinha tailandesa que for criada no Brasil crescerão falando chinês e português, respectivamente, sem o menor sotaque e com completa fluência, mesmo sem nenhuma ligação genealógica com os pais adotivos e a população de seu novo país.

No entanto, processos históricos mais amplos podem acabar criando correlações intrigantes entre a composição populacional de uma região e a variabilidade dos idiomas falados nela, conforme indica um estudo publicado recentemente na revista especializada PNAS.

Eis as conclusões dos autores da pesquisa, liderados por Anna Graff e Balthasar Bickel, do Instituto para o Estudo Interdisciplinar da Evolução da Linguagem, na Universidade de Zurique. Numa análise englobando mais de 4.000 línguas do mundo todo, eles verificaram que existe uma correlação inversa entre diversidade genética humana, de um lado, e diversidade linguística, de outro. Ou seja, áreas em que a população é geneticamente diversificada têm, paradoxalmente, baixa variabilidade em suas línguas, e o contrário também é verdadeiro.

Antes de examinar melhor os resultados, porém, alguns pingos nos is. O que eles mediram foi, de um lado, a homozigosidade —ou seja, a chance de que as pessoas carreguem duas cópias da mesma variante de um trecho de DNA, em vez de duas variantes diferentes (lembrando que, como os cromossomos humanos, as estruturas que abrigam o material genético, costumam estar presente em pares, cada trecho do DNA de uma pessoa pode ter duas versões ou uma só, se for uma “figurinha repetida”).

De outro, com base na “biblioteca” de línguas que usaram, os pesquisadores levaram em conta a variação da diversidade estrutural. Ou seja, a variabilidade em coisas como o inventário de fonemas de cada idioma (quantos sons diferentes de consoantes e vogais) e a sintaxe (como a famigerada ordem de palavras na frase —no português, a sequência preferida é SVO, sujeito-verbo-objeto, mas há várias outras possibilidades ou mesmo línguas muito flexíveis nesse quesito).

Foi comparando os dois fatores, a partir da divisão do mapa-múndi em áreas com o mesmo tamanho, que os pesquisadores perceberam a correlação inversa. Lugares com alta homozigosidade —ou seja, geneticamente pouco diversos— também são aqueles nos quais convivem no mesmo espaço geográfico grandes variações fonéticas e na sintaxe, e vice-versa.

Para os autores do estudo, a explicação mais provável é que regiões mais conectadas por migrações e outras grandes mudanças demográficas ao longo do tempo —portanto, mais diversas geneticamente— tendem a ser palco de um “achatamento” das diferenças linguísticas. Já nas áreas mais isoladas essas mudanças tendem a se acumular. É quase como se, no “DNA” da linguagem humana, houvesse um impulso para criar formas novas de se expressar.


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