Violência doméstica: como os hospitais acolhem as vítimas – 18/09/2026 – Equilíbrio e Saúde

Todos os dias, por volta das 7h45, a supervisora de enfermagem Michelle Sousa, 36, pergunta se há algum caso de violência no Hospital Geral do Grajaú, centro de referência do IRSSL (Instituto de Responsabilidade Social do Sírio-Libanês).

Eventualmente alguém responde que há uma vítima de violência doméstica na unidade. A frequência varia e pode acontecer de uma a quatro vezes na mesma semana ou quinzenalmente. Final de semana, feriado e fim de ano influenciam os números.

Desde o ano passado até agosto de 2026, a média de atendimentos a casos de violência contra a mulher na unidade foi de três por semana, segundo o instituto. Foram 269 no total.

Ao menos 15 mulheres são internadas por dia em hospitais do Brasil em decorrência de violência doméstica, de acordo com um estudo da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Michelle afirma que, geralmente, as mulheres chegam com o rosto desfigurado, politraumatismo e machucados na cabeça.

“Como às vezes elas são espancadas com socos ou objetos, chegam com fraturas que lembram um acidente de moto ou de carro. Ficam envergonhadas e extremamente abaladas. Isso toca a gente.”

Segundo a enfermeira, as vítimas chegam sozinhas, acompanhadas de familiares ou mesmo do próprio agressor. Algumas entram pela porta do pronto-atendimento, outras chegam de ambulância ou de carro. Mulheres grávidas vítimas de agressão também são atendidas com frequência.

Por ser um hospital de referência, os casos que chegam a Michelle costumam ser mais graves.

Mas todos os serviços do SUS, incluindo UBSs (Unidades Básicas de Saúde) e UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), têm um protocolo para atender às mulheres vítimas de violência, diz Bianca Miranda, diretora médica do IRSSL.

O primeiro contato geralmente é feito por um profissional de enfermagem na triagem, também conhecida como classificação de risco. Nesse momento, a mulher pode contar sobre a violência ou apenas falar dos próprios sintomas.

Alguns sinais despertam a suspeita de violência: postura retraída ou cabisbaixa, demonstração de medo, ansiedade, choro ou voz trêmula, tremores nas extremidades e alta sensibilidade emocional, segundo Bianca.

Dores de cabeça e no corpo ou outras dores que não têm causa específica, bem como lesões não compatíveis com o relato da mulher também acendem alerta.

Michelle lembra de um caso recente. Uma mulher resgatada após um acidente de carro chegou ao pronto-socorro acompanhada do marido. Inicialmente, relatou que suas lesões eram decorrentes do acidente.

Enquanto a equipe médica e de enfermagem avaliava o caso e os exames de imagem, a paciente passou a entrar em contradição, apresentando primeiro uma versão dos fatos, depois outra. As lesões que ela apresentava também não coincidiam com a narrativa do acidente.

As equipes de serviço social e psicologia foram acionadas. Ao final, a paciente revelou que houve uma discussão seguida de agressões dentro do carro, culminando no acidente.

A presença de um acompanhante —frequentemente do sexo masculino, mas não exclusivamente— que tenta responder e falar pela paciente é outro fator que levanta suspeitas. Assim como a busca frequente e repetida dos serviços de saúde, com queixas inespecíficas.

Em situações assim ou de violência confirmada, a paciente imediatamente recebe uma pulseira de cor diferente para ter prioridade no atendimento, além de poder ser direcionada a uma sala reservada. O acompanhante não sabe o que a cor representa.

Com essa pulseira, os profissionais de saúde entendem que a paciente precisa de um fluxo de atendimento diferente e não perguntam a todo momento o que a levou até ali. A intenção é evitar a revitimização, diz Bianca. A vítima também pode decidir se prefere ficar sozinha ou acompanhada e até restringir a entrada do agressor no hospital.

Todas as informações e características das lesões são registradas minuciosamente no prontuário eletrônico, afirma a médica. O objetivo é que o documento possa servir como um dossiê clínico para respaldar futuras ações da vítima, caso ela decida fazer um boletim de ocorrência, por exemplo.

Depois de ter os ferimentos tratados, a mulher conversa com os profissionais do serviço social e da psicologia.

O serviço social, diz Bianca, explica para a vítima quais são seus direitos e os caminhos legais que ela pode seguir, de forma que a decisão final seja dela. “Sem qualquer tipo de imposição ou julgamento.”

O hospital atua na coordenação do cuidado para garantir uma alta segura, acrescenta a médica. Isso inclui encaminhar a paciente para acompanhamento contínuo na UBS, para serviços especializados em violência sexual, se for o caso, ou para abrigos se ela não puder ou não quiser voltar para casa.

“As pessoas precisam saber que elas têm ambientes seguros para procurar apoio e um tipo de tratamento específico, seja ele físico ou psicoemocional”, afirma Bianca.

Segundo Michelle, a equipe de saúde do Hospital Geral do Grajaú tenta conversar com as pacientes para que elas possam enxergar a unidade como uma rede de apoio. “Esperamos que elas venham e se sintam seguras e à vontade. Estamos aqui para dar esse suporte e acolhimento.”

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