Zuckerberg, Musk e Altman: por que os bilionários da tecnologia viraram os novos vilões de Hollywood

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Na sede do Facebook, no Vale do Silício, Mark Zuckerberg recebe meia dúzia de funcionários com uma proposta. Uma mudança no algoritmo reduziria em até 38% a desinformação exibida aos usuários. O preço seria perder cerca de 1% do engajamento. É o único número que prende a atenção de Zuckerberg. Incomodado, ele recusa a ideia. A equipe, parte do time de integridade cívica, foi desfeita meses depois. A cena desconcertante é retratada em O Outro Lado das Redes (The Social Reckoning, Estados Unidos, 2026), que estreia nos cinemas na quinta-feira 22. Entre aqueles funcionários estava Frances Haugen, gerente de produto que, em 2021, levou a público documentos internos da empresa — os dados vazados por ela foram publicados em uma série de matérias investigativas do Wall Street Journal, dando início ao escândalo batizado de Facebook Files. A reportagem comprovava que Zuckerberg estava a par dos diversos efeitos nocivos de suas plataformas, como a disseminação de ódio e desinformação, mas frequentemente deixava de tomar medidas suficientes para combatê-los.

BASTIDORES – Jeremy Allen White e Mikey Madison: vazamento de dados – (Sony Pictures/.)

O caso motivou o retorno do cineasta Aaron Sorkin a esse universo — o americano ganhou o Oscar de melhor roteiro adaptado pelo filme A Rede Social (2010), dirigido por David Fincher, que antecipou discussões sobre o poder das plataformas digitais e a ética de seus fundadores ao retratar a criação do Facebook. “Em 2010, Zuckerberg era um anti-herói, um jovem socialmente desajeitado”, disse Sorkin a VEJA. “Agora, ele é uma das pessoas mais ricas do mundo, sua empresa tem 3 bilhões de usuários e vemos na prática as consequências terríveis das decisões que ele toma.” Uma delas, aponta Sorkin, foi servir de base para a desinformação promovida por extremistas que motivou a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021.

Dessa vez no posto de diretor, Sorkin tira o protagonismo de Zuckerberg e o entrega para Frances, interpretada por Mikey Madison. O filme se passa entre 2018 e 2021 e mostra a aproximação dela com o repórter Jeff Horwitz (Jeremy Allen White). “No começo, ela queria ajudar a empresa, não prejudicá-la”, conta Mikey sobre a personagem, que acreditava na missão do Facebook de conectar pessoas, até vislumbrar seus malefícios. Já White sempre foi pessimista: “A pergunta que me faço sobre empresas como o Facebook e seus líderes é: o que é suficiente? Receio que queiram tudo. Todo o nosso tempo, toda a nossa atenção”. Em contraposição à dupla, o criador do Facebook, interpretado por Jeremy Strong, passa o filme trancado em uma sala, ensaiando com o seu extenso time de relações públicas a defesa da Seção 230, trecho da lei americana que isenta as plataformas de responsabilidade pelo que os usuários publicam. Já baqueado pelo escândalo Cambridge Analytica, em 2018, que provou o uso indevido de dados de usuários em estratégias de propaganda eleitoral, e um mês depois do depoimento de Frances no Senado americano, o Facebook passou a se chamar Meta, numa sacada de marketing que tentava zerar o jogo.

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Homem de terno azul, chapéu de cowboy e botas de zebra, com expressão séria, apoia-se em uma pá. Ele está em frente a um mural que retrata uma paisagem industrial com chaminés, torres de petróleo e fumaça, sob um céu azul
SÁTIRA - Tom Cruise em Digger: humanidade consumista seria cúmplice das criações dos bilionários – (Warner Bros. Pictures/Warner Bros)

Historicamente, Hollywood espelha nos vilões os medos mais latentes da sociedade. Nos anos 1950, foi a vez do pânico anticomunista e do pavor atômico. A era Reagan ressuscitou o inimigo soviético em versões caricatas. Depois da crise de 2008, a mira se voltou para os banqueiros. Agora, o banco dos réus está ocupado por bilionários do Vale do Silício. O mais rico deles acaba de ganhar um documentário de quase quatro horas. Musk, de Alex Gibney, refaz a trajetória de Elon Musk da África do Sul ao topo da lista da Forbes, que estima sua fortuna em 1 trilhão de dólares. O empresário se recusou a dar entrevista, e o filme deu seu jeito: uma inteligência artificial responde por ele. Já entre os entrevistados (de carne e osso) estão a ex-mulher Justine Musk e o cofundador da Tesla, Martin Eberhard. O documentário examina a influência que Musk passou a exercer na política americana durante o governo Trump.

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Um grupo de pessoas diversas, jovens e adultos, em uma festa. Alguns estão na escada, outros em primeiro plano. Um homem no centro segura duas facas, sorrindo. Outro homem à direita segura uma garrafa de champanhe. Todos parecem se divertir, rindo e conversando
DE OLHO NO OSCAR - Andrew Garfield como Sam Altman em Artificial: os bastidores da OpenAI – (Neon/.)

Outro que ganhou os holofotes do cinema, e não de forma elogiosa, é Sam Altman, CEO da OpenAI, dona do ChatGPT. Andrew Garfield — que deu vida a Eduardo Saverin, cofundador do Facebook, em A Rede Social — volta ao mundo das big techs na pele de Altman na sátira Artificial, de Luca Guadagnino. O filme, ovacionado no Festival de Nova York — e já cotado para o Oscar —, mostra a euforia com a rápida adoção da inteligência artificial e discute a falta de cautela no desenvolvimento da tecnologia. Fora da tela, o longa virou vítima do próprio sistema. Seria lançado pela Amazon MGM, do conglomerado de Jeff Bezos, mas o estúdio desistiu pouco depois de a Amazon anunciar um investimento de 50 bilhões de dólares na OpenAI. A distribuidora independente Neon assumiu o título, ainda sem data de estreia no Brasil. O anseio com o tema inspirou a ficção de Alejandro G. Iñárritu no retrato do bilionário vivido por Tom Cruise em Digger: magnata da energia, ele divide a culpa de sua ganância com a humanidade consumista diante da catástrofe ambiental e tecnológica à espreita. “São pessoas fascinantes que, em maior ou menor grau, foram corrompidas”, analisa Sorkin sobre a onda. “Esses filmes chegam em um momento mais do que oportuno.”

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Jovem de cabelo cacheado e moletom roxo, com mochila azul no ombro, olha para cima em um hall com escada de madeira. Outros dois jovens aparecem desfocados ao fundo.
PIONEIRO - Jesse Eisenberg em A Rede Social: filme antecipou discussões – (Columbia Pictures/.)

O desfecho do Facebook Files mostra que o acerto de contas está longe de acontecer. As revelações na época ajudaram a aprovar leis de proteção a menores na Europa e embasaram processos de mais de quarenta estados americanos. Mas, na prática, Zuckerberg se mantém intocável. Uma prova é que, quando saiu A Rede Social, o Facebook valia 25 bilhões de dólares. Hoje, vale quase 2 trilhões.

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Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017

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