A escalada política que a família Bolsonaro está imprimindo na relação comercial entre Estados Unidos e Brasil está chegando forte às atividades do campo, e deverá ser intensificada. Todos os pedidos dos filhos de Bolsonaro para a imposição de sanções ao Brasil, para livrar o pai da prisão, abrem uma brecha para ações mais intensas contra o agronegócio brasileiro mais adiante.
Uma das razões dadas pelo USTR (Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos) para impor barreiras ao Brasil é a de que os produtores brasileiros exploram terras desmatadas ilegalmente para obter vantagens sobre os agricultores americanos. Daí para novas sanções com viés comercial, é um passo.
A principal base de apoio de Donald Trump vem do campo, e o presidente americano, desde o seu primeiro mandato, tem colocado os produtores americanos em uma situação delicada no mercado internacional. A briga maior é com a China, país com poder de fogo e de resposta às investidas do presidente americano. Sem um acerto satisfatório com os chineses, Trump vai atender as demandas dos produtores americanos com sanções em outros países, inclusive no Brasil, o principal concorrente dos Estados Unidos no setor agropecuário.
A própria explicação do secretário de Estado Marco Rubio para as sanções é política, ao afirmar que as ações de Lula são ruins para os brasileiros. Ao criticar Lula, o secretário quer reduzir o efeito eleitoral das tarifas na campanha de Flávio Bolsonaro, que as quer, mas só depois das eleições.
A família Bolsonaro age contra o próprio agronegócio, a sua principal base de apoio. Os americanos, por ora, não impõem barreiras em produtos dos quais são altamente dependentes do Brasil, como carne bovina; por isso, a adoção de tarifas abre caminhos para restrições comerciais lá na frente, quando a oferta interna melhorar nos Estados Unidos.
O próprio relatório do USTR traz discussões sobre a posição de parte dos produtores, que entende que, melhor do que impor tarifas, seriam negociações e um engajamento comercial entre os dois países. Produtores do setor de etanol, um dos pontos de maior atrito nas negociações, afirmam que a aplicação de uma tarifa pelos americanos acima da dos brasileiros vai dar instabilidade ao mercado nos Estados Unidos.
Entre os motivos das sanções está o do avanço do desmatamento no Brasil, mas o comércio de madeira, principalmente a tropical, está liberado para os americanos, e sem tarifa. A explicação no relatório é a de que o produto brasileiro é bom, mais resistente a incêndios e sem opção de compra em outros países.
As isenções de tarifa de vários produtos brasileiros são justificadas pelo representante de comércio dos Estados Unidos pela indisponibilidade interna de produtos, possibilidade de afetar a economia americana e impossibilidade de produção interna ou de abastecimento em outros mercados com preços razoáveis. Será que houve, realmente, interesse dos americanos em negociar, ou já estava tudo definido?
Os Estados Unidos colocam o Brasil como um dos países com as maiores barreiras de entrada no mercado americano, mesmo com um déficit contínuo da balança comercial brasileira. Se o Brasil perde na balança industrial e de serviços, leva vantagem na do agronegócio. No primeiro semestre deste ano, os brasileiros exportaram o correspondente a US$ 6,7 bilhões (R$ 34,2 bilhões) em produtos relacionados ao setor, e importaram US$ 2,5 bilhões (R$ 12,8 bilhões).
Os cinco principais produtos exportados, e que os americanos liberaram da taxa, somam US$ 3,65 bilhões (R$ 18,67 bilhões). Carne bovina, café e celulose lideram, vindo a seguir suco e madeira.
Mas se boa parte dos alimentos e de outros produtos do agronegócio produzido no Brasil está na lista da taxação, resta aos brasileiros exportarem antiguidades com mais de 250 anos. É o que consta na lista, e está liberado.
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