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Bets e juros altos elevam dívidas das famílias – 22/04/2026 – Economia

“Minha Santa Edwiges, agracia o pedido que venho fazer a vós, para que este final do mês de abril eu consiga pagar a conta toda no mercado, ou pelo menos consiga pagar uma parte da minha conta que eu estou devendo, para poder fazer outras compras e pagar no final do mês. Amém, amém, que assim seja e a Senhora abençoe e ilumine, amém.”

A oração foi publicada no início de abril por uma mãe cearense em uma comunidade virtual que reúne devotos da santa católica protetora dos aflitos e endividados.

A aflição dessa mãe é hoje a de 80,4% das famílias brasileiras, que se encontravam endividadas em março, recorde na série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada desde janeiro de 2010 pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Segundo a pesquisa, 29,6% das famílias tinham dívidas em atraso em março e 12,3% não tinham condição de pagar as contas atrasadas naquele mês, com o pagamento de dívidas comprometendo quase um terço da renda familiar (29,6%).

Cartões de crédito (84,9%), crediários do varejo (16%) e empréstimos pessoais (12,6%) representam hoje os principais tipos de dívidas das famílias, segundo o levantamento.

Outra pesquisa, realizada pela Serasa, aponta que 81,7 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em fevereiro, ou 49,9% da população adulta, com valor médio da dívida por pessoa de R$ 6.598,13.

Segundo especialistas, três fatores principais explicam o alto endividamento: a ampliação da oferta de crédito com o aumento do número de pessoas com contas em banco desde a pandemia, as altas taxas de juros e, mais recentemente, a disseminação no país das plataformas de apostas virtuais, conhecidas como bets.

O endividamento elevado virou uma dor de cabeça para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no ano eleitoral.

A avaliação do governo é de que o peso das dívidas mascara a alta da renda e o desemprego baixo, contribuindo para a avaliação negativa dos brasileiros da economia, mesmo com a inflação controlada e o PIB (Produto Interno Bruto) crescendo.

Em resposta ao problema, o governo planeja lançar uma segunda versão do programa de renegociação de dívidas Desenrola Brasil.

Uma das medidas em estudo é a liberação de valores retidos no FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para quitação de dívidas, em um montante que pode chegar a R$ 7 bilhões, segundo informações preliminares.

O governo também avalia mecanismos para conter o uso excessivo de plataformas de apostas para tentar reduzir o endividamento das famílias. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, indicou que o novo programa deve contemplar tanto pessoas físicas quanto empresas.

‘RECEBO 20 LIGAÇÕES DE COBRANÇA POR DIA’

“Que bom que você avisou que ia ligar, porque senão o DDD 11 eu não atenderia normalmente”, diz a catarinense Bárbara Helena da Silva, de 31 anos, ao falar por telefone com a reportagem da BBC News Brasil.

“Eu recebo por volta de 20 ligações de cobrança por dia. Descobri que estão ligando até para minha cunhada para cobrar dívida minha. Fiquei triste, porque esse é um problema meu, não queria que respingasse em outras pessoas.”

As dívidas de Bárbara são hoje as mais comuns entre os brasileiros: foram três cartões de crédito que levaram a moradora de Florianópolis a se tornar inadimplente.

Ela estima suas dívidas em atraso hoje em mais de R$ 20 mil —originalmente, eram cerca de R$ 10 mil, que dobraram em seis meses, diz ela, por causa dos altos juros dos cartões.

Segundo dados do Banco Central, o juro médio cobrado pelos bancos no rotativo do cartão de crédito era de 435,9% ao ano em fevereiro —o crédito rotativo é acionado quando a pessoa não paga o valor total da fatura até o vencimento.

Mas, desde 2024, está em vigor uma norma que estabelece um teto para o aumento de uma dívida no cartão de crédito até o dobro do valor original.

Segundo uma pesquisa Datafolha divulgada em 18 de abril, 27% dos entrevistados disseram usar o crédito rotativo com diferentes graus de frequência.

Esta mesma pesquisa mostrou que 67% dos brasileiros dizem ter dívidas financeiras e que 21% têm parcelas em atraso.

Bárbara conta que, como psicóloga autônoma, sente em primeira mão quando a renda das pessoas está apertada, porque, quando elas perdem poder de compra, o primeiro gasto que cortam é com a saúde mental.

“Fui perdendo clientes, e minha renda foi diminuindo bastante. Aí, tive que optar por pagar o aluguel e as contas de casa ou pagar o cartão de crédito, que tinha várias compras parceladas. Foi meio que inevitável”, diz a psicóloga.

Entre as compras parceladas nos seus três cartões —dois de instituições financeiras digitais e um de banco tradicional—, ela cita o computador que usa para trabalhar, uma cadeira de escritório e um aparelho de ar-condicionado.

“São coisas pequenas, mas que a gente não consegue comprar à vista. A gente vai parcelando, vai juntando parcela com parcela, e vira uma grande bola de neve.”

UMA SOCIEDADE QUE CONSOME VIA CRÉDITO

O geógrafo Kauê Lopes dos Santos estudou a cultura da compra parcelada nas periferias de São Paulo em seu livro recém-lançado Parcelado (Editora Fósforo).

“Do ponto de vista estrutural, temos no Brasil uma sociedade que consome via crédito, via parcelamento”, diz Santos, que é professor da Unicamp (Universidade de Campinas).

Ele observa que essa cultura de consumo se fortaleceu particularmente nas últimas três décadas, a partir dos anos 2000.

“Isso vai desde produtos mais caros —e aí temos, sobretudo, os imóveis, já que praticamente todas as classes sociais precisam parcelar a compra de moradia—, mas chega até a situações de parcelamento de compra de alimentos. Então, o espectro do endividamento e do parcelamento é muito grande.”

A partir de entrevistas que conduziu com moradores de periferias paulistanas desde 2010, Santos observa que o parcelamento passou a fazer parte do modus operandi da organização do orçamento doméstico, assim como eventuais entradas em situação de inadimplência.

“O que observei nas entrevistas é que a situação de endividamento é tratada com um certo humor, do tipo: ‘Mas, também, quem não está parcelando?'”, conta o pesquisador.

“Ao mesmo tempo, isso é um dado de tensão dentro do orçamento doméstico, justamente porque as populações de baixa renda são aquelas que têm os menores rendimentos e que muitas vezes trabalham em condições de informalidade, ou seja, em situações de maior vulnerabilidade.”

O professor da Unicamp destaca que o pagamento de parcelas compromete o orçamento das famílias a longo prazo, no que ele chama em seu livro de uma “alienação do futuro”.

“Se você tem um rendimento e você sabe que está trabalhando todo mês para pagar aquilo, a possibilidade de você sonhar, de se projetar no cenário no futuro em outro lugar, com outra experiência de vida, ou até mesmo ascender socialmente está comprometida”, afirma Santos.

“Porque todo esse parcelamento que você está pagando é um produto da sua renda e do seu trabalho. Aquilo não está sendo utilizado para um projeto pessoal, está sendo utilizado por instituições financeiras e para o pagamento de juros —os mais altos do mundo.”

A esse cenário se somaram recentemente as bets, observa o pesquisador. “Isso potencializa a questão do endividamento”, afirma.

“É um campo importante de pesquisa, porque o sujeito que está endividado e que vai buscar dinheiro fácil acredita na promessa das bets, se endivida mais ainda, e tem que recorrer ao cheque especial e a outras modalidades de crédito com taxas ainda mais altas.”

‘O JOGO PRATICAMENTE DESTRUIU MINHA VIDA’

Foi o que aconteceu com Nicole, de 21 anos, moradora de um município de pouco mais de 8.000 habitantes no interior da Bahia. A jovem dona de casa afirma que teve seu casamento e sua saúde mental destruídos pelo vício em apostas.

Atualmente, não sabe dizer quanto tem em dívidas, mas estima que sejam mais de R$ 10 mil, em empréstimos bancários que tomou para continuar apostando em bets. Ela preferiu ter seu nome verdadeiro preservado para dar seu relato à BBC News Brasil.

“Tudo começou em 2023. Foi assim: eu estava assistindo o vídeo de uma influenciadora muito famosa nos stories [do Instagram], aí me deparei com ela postando o link de um jogo e acabei clicando”, lembra.

“Joguei R$ 10 na época e ganhei R$ 100, aí fiquei eufórica. Daí por diante, o vício só foi crescendo, cada dia mais. Eu não conseguia mais sair.”

“Meu nome hoje em dia é sujo em cinco bancos por conta das casas de apostas. Então, trouxe para mim muitos problemas, tanto financeiros, como físicos e psicológicos. Esse jogo praticamente destruiu minha vida, meu casamento desabou por conta do vício.”

Desempregada e com o Bolsa Família como única fonte de renda, ela diz que não tem perspectiva de pagar a dívida.

“Como não trabalho e, na Bahia, atualmente, é difícil arrumar emprego, não estou pagando, porque são muitas dívidas, não tenho como pagar.”

Nicole afirma que ainda não tem candidato a presidente para as eleições de outubro, mas se diz pessimista com os rumos do país.

“O Brasil só vem decepcionando a gente, por vários fatores, como as casas de apostas. Isso já era para ter sido resolvido pelo governo, porque ele está vendo que está destruindo milhares e milhares de pessoas”, diz ela.

Uma pesquisa Quaest divulgada em 17 de abril mostrou que 29% dos brasileiros dizem ter o costume de fazer apostas em bets.

“Já era para o governo ter bloqueado as casas de apostas, mas, infelizmente, a gente vive em um país que é basicamente sem lei.”

‘BANCOS SÃO LENIENTES PARA CONCEDER CRÉDITO’

Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, observa que um dos fatores relevantes por trás do recorde de endividamento é a falta de critérios das instituições financeiras na concessão de crédito.

O caso de Nicole é um exemplo disso: a dona de casa tem no Bolsa Família sua única fonte de renda, mas conseguiu empréstimos com cinco instituições financeiras.

“Existe uma certa leniência dos bancos na concessão do crédito, especialmente modalidades altamente populares, como o rotativo do cartão de crédito, que é praticamente uma linha pré-aprovada de crédito com juros altíssimos”, diz Bentes.

Procurada pela BBC News Brasil, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) discorda da análise e afirma que “o objetivo principal do sistema bancário é promover acesso responsável ao crédito, com equilíbrio entre inclusão financeira, gestão de risco e proteção ao cliente”.

A entidade afirma que a concessão de crédito das instituições a ela associadas segue “critérios rigorosos de análise”, a partir da regulamentação estabelecida pelo Banco Central e considerando o perfil de cada consumidor.

No caso específico do rotativo do cartão de crédito, a Febraban aponta que essa é uma “linha emergencial e de curtíssimo prazo”. “Seu custo mais elevado está diretamente associado ao maior risco da operação, à ausência de garantias e à maior probabilidade de inadimplência nesse tipo de crédito”, diz a nota enviada à reportagem.

Outro fator relevante foi o avanço da bancarização a partir da pandemia, com a multiplicação dos bancos digitais e o uso do Pix possibilitando a inclusão financeira e o acesso a crédito.

Isso foi positivo para a economia como um todo e trouxe maior segurança para milhares de pessoas, que antes recorriam a agiotas quando necessitavam de empréstimos, explica o economista.

No entanto, a combinação de mais pessoas com conta em banco, falta de educação financeira e uma taxa básica de juros que chegou a 15% ao ano (atualmente, a Selic está em 14,75% ao ano, ainda bastante elevada) foi explosiva para o endividamento.

Neste cenário, tanto Bentes, como Kauê Lopes do Santos, da Unicamp, avaliam que uma nova edição do Desenrola deve apenas promover um alívio temporário, mas não resolver o problema crônico do endividamento.

Estudo recente da consultoria MB Associados mostra que a primeira versão do programa, encerrada em maio de 2024, “produziu uma redução estatisticamente significativa e economicamente relevante na inadimplência das famı́lias de baixa renda, da ordem de 2 a 3,5 pontos percentuais nas linhas sem garantia” —empréstimos concedidos sem a necessidade de um bem (imóvel ou veículo) para dar segurança ao banco.

“Contudo, o efeito foi inteiramente temporário: dissipou-se em 18 meses após o lançamento, com a inadimplência retornando e, em muitos casos, superando os níveis pré-programa”, observa Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, em relatório que apresenta os resultados do estudo.

“Isso sugere que o Desenrola funcionou como uma limpeza pontual de carteira, sem alterar os determinantes estruturais do endividamento.”

Para Bentes, da CNC, uma mudança estrutural exigiria promover a educação financeira da população, melhorar a transparência na comunicação dos custos da tomada de crédito, um maior controle por parte das instituições financeiras na concessão de crédito, aumento da competição bancária e, por fim, a redução dos juros básicos da economia.

“O governo precisa dar o exemplo e equilibrar o orçamento dele, porque é o desequilíbrio das contas públicas que joga a Selic a 15%”, diz o economista.

O desequilíbrio das contas públicas —quando o governo gasta mais do que arrecada— tende a elevar os juros, porque aumenta a percepção de risco pelos investidores.

Para financiar o déficit, o governo precisa emitir mais dívida, pressionando as taxas para cima. Além disso, há maior incerteza sobre inflação futura, o que leva o Banco Central a manter juros mais altos para controlar a inflação, encarecendo o crédito em toda a economia.

O economista-chefe da CNC observa que é o próprio governo o mais afetado pelo mau humor dos endividados, o que deve ter impactos nas eleições deste ano.

“As decisões relacionadas a eleições tendem a ser multifatoriais, mas é claro que um eleitor com uma dívida, com a corda no pescoço, tende a criticar a situação, [e dizer] ‘esse governo que me levou a essa situação'”, afirma Bentes.

“Um eleitor menos endividado tende a ter uma decisão mais serena e menos extrema do que o eleitor que está com uma parcela alta da renda comprometida.”

OS ENDIVIDADOS E AS ELEIÇÕES DE OUTUBRO

O mineiro Otávio, de 39 anos, é um exemplo dessa insatisfação dos endividados com o governo.

Morador de uma cidade de pouco mais de 6.000 habitantes no interior mineiro, onde é dono de uma loja de acessórios de informática e serviço de copiadora, ele também se endividou ao cair no vício das apostas, assim como a baiana Nicole.

Primeiro, queimou toda sua poupança, depois, vendeu seu carro avaliado à época em R$ 35 mil para pagar dívidas, mas diz que acabou gastando 80% do valor da venda do veículo em apostas.

“Aí começou a minha saga: peguei empréstimos, um por cima do outro, gastei com cartão de crédito, foi virando aquela bola de neve”, diz Otávio, que teve seu nome real preservado nesta reportagem.

Ele estima ter atualmente cerca de R$ 30 mil em dívidas, mas já ter pedido mais de R$ 100 mil no jogo.

Otávio avalia que o governo faz pouco para combater o problema do vício em apostas entre a população.

“Se eles estivessem tão preocupados assim, podiam já ter acabado com isso faz tempo, porque faz mais de cinco anos que isso é um problema no Brasil, não é possível.”

As apostas foram autorizadas no Brasil em 2018, durante o governo de Michel Temer (MDB), e regulamentadas em 2023 e 2024, durante o terceiro mandato de Lula.

O pequeno empresário mineiro diz que ainda não escolheu seu candidato para outubro, mas que provavelmente será Flávio Bolsonaro (PL).

“Acho que, para além desse endividamento, o país está todo desequilibrado, a economia, muitas coisas pioraram bastante.”

Já a catarinense Bárbara diz que o fato de ela estar inadimplente e de o endividamento no Brasil ser recorde não muda em nada sua intenção de voto em Lula em outubro.

“Eu sei que tudo isso acontece por questões que vão além do que o poder público tem em conta de lidar. Então, tem a questão do sistema financeiro, a questão das crises internacionais que acabam afetando o Brasil”, diz a psicóloga.

“Acho que o governo está fazendo um trabalho bom para tentar evitar que isso chegue à população, mas eles não podem fazer tudo e dar conta de tudo.”

Apesar das perspectivas políticas distintas, Bárbara, Nicole e Otávio têm em comum não terem ficado sabendo das medidas em estudo pelo governo para reduzir o endividamento dos brasileiros.

Informados pela reportagem da BBC News Brasil sobre elas, todos avaliaram que o relançamento do Desenrola pode ser positivo.

Mas o desconhecimento por parte de pessoas de todo o Brasil, de classes sociais distintas, revela o desafio de comunicação que o governo enfrenta.

Fonte: Link da fonte

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