Quando realizou o filme O Deserto de Luiza, o cineasta carioca Alan Minas não poderia imaginar que sua história tão brasileira iria ter estreia mundial do outro lado do mundo, dentro do Festival Internacional de Cinema de Xangai, muito menos cercada de outras obras nacionais celebradas pela comitiva brasileira enviada ao evento pela Plataforma Brasil de Audiovisual, realizada pelo Ministério de Cultura em parceria com diversas outras entidades.
Entre 19 e 23 de junho, 44 representantes e 16 empresas do setor audiovisual entraram em contato direto com o mercado chinês, parte das celebrações do Ano Cultural Brasil-China 2026 e mais um investimento no cinema como forma de poder diplomático, meses após a participação de O Agente Secreto no Oscar — que, em 2025, premiou Ainda Estou Aqui.
Para Leo Edde, diretor-presidente da RioFilme, a missão foi emblemática e apresentou a cidade maravilhosa a investidores estrangeiros, “não só como cenário, mas como plataforma de produção, tecnologia, turismo e indústria criativa”.
Minas, por sua vez, ficou comovido com a resposta do público ao seu longa-metragem, que foi o único a integrar a competição principal do evento e conta a história de Luiza (Nina Prado), uma adolescente que sonha em ser artista, mas é também obrigada a fazer o possível para manter sua família unida depois que a mãe é diagnosticada com esquizofrenia. Em entrevista a VEJA, o realizador frisou a surpresa:
O filme foi selecionado para o festival antes ou depois da organização da comitiva? Nossa inscrição partiu do trabalho de nossa agente de vendas internacional, chamada Begin Again. Eles correram todo o percurso para que o filme fosse aceito na competição.
Como foi o contato com o público do Festival Internacional de Cinema de Xangai? Minha expectativa era enorme desde o anúncio da seleção do filme, justamente porque ficava imaginando como ele se conectaria à plateia. Minha escrita sempre faz uso de uma linguagem onírica, poética e marcada pelo realismo mágico, que costuma ser bem recebido aqui no Brasil ou em outros países da América Latina. Lá, tive a grande surpresa de perceber que essa mesma faceta os tocou. É claro que a premissa é muito particular e referente a um protagonista no subúrbio do Rio de Janeiro, mas as questões em pauta são universais.
Quais pontos de conexão foram mais surpreendentes? Entre o contato com a imprensa e conversas informais, vi que as pessoas ficavam intrigadas na busca por dar sentido a alguns simbolismos ou metáforas que uso. O filme deixa certas possibilidades em aberto, e cabe ao público complementá-las de acordo com seu próprio contexto ou mesmo estado de espírito no momento da sessão. A trama é um convite à participação. Não sei se eu fui ao encontro do que eles esperavam, mas acredito que sim. Permito que o filme encontre outros filmes dentro dele mesmo.
Quanto à participação do Ministério da Cultura no festival, observou uma abertura significativa para coproduções entre Brasil e China? Não tenho dúvidas de que sim. Eu sabia por alto que este era o Ano Cultural Brasil-China e descobri que a comitiva iria ao festival após o anúncio. Nós nos juntamos a eles e fomos apoiados. Acredito que a participação brasileira por lá tenha sido muito positiva e conseguimos sim fazer contatos. Preciso também ressaltar que O Deserto de Luiza foi feito em parceria com a RioFilme e que, sem essas entidades, não poderíamos estar compartilhando histórias com o com o mundo. Todas as instituições foram e continuam sendo fundamentais para o filme e para mim enquanto realizador.
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