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É a taxa de câmbio, estúpido! – 02/10/2025 – Bráulio Borges

Após apresentar forte deterioração desde meados de 2024 até junho deste ano, a popularidade do governo Lula vem apresentando alguma melhora nos últimos meses –a despeito de uma desaceleração mais evidente da atividade econômica doméstica.

Alguns vêm apontando que essa melhoria da aprovação reflete a resposta de Lula à escalada de Donald Trump contra o Brasil, que teve início no começo de julho. Ao utilizar um discurso de defesa da soberania nacional, o atual mandatário brasileiro teria conseguido alavancar sua popularidade e enfraquecer a oposição, replicando em certa medida um fenômeno que também aconteceu em outros países neste ano, como Canadá e Austrália.

Outros apontam que isso seria resultado de mudanças na estratégia de comunicação adotadas no começo deste ano. O alívio recente nos preços dos alimentos também é indicado como um dos elementos por detrás dessa dinâmica recente da aprovação.

Embora os fatores acima não possam ser desprezados, avalio, com base em alguns modelos estatísticos, que o principal condicionante dessa “gangorra” da popularidade presidencial desde o ano passado é a evolução da taxa de câmbio nominal.

Recapitulando: o R$/US$ iniciou 2024 algo abaixo dos 5,00 e sofreu alguma depreciação, para perto de 5,10/5,15, após a revisão para baixo das metas fiscais anunciada pelo governo federal em abril. Depois disso, com o aumento da probabilidade de vitória de Trump, o R$/US$ subiu para perto de 5,50/5,60 até outubro e, com o desfecho das eleições nos EUA, superou os 6,00 no final do ano passado.

Desde o início do “tarifaço” trumpista, o dólar norte-americano vem se enfraquecendo ante outras moedas fortes. Esse processo se intensificou após o “Liberation Day”, em abril. Nesse contexto, o R$/US$ apresentou uma valorização modesta, para perto de 5,80, ao longo do primeiro quadrimestre de 2025, e, desde maio, vem se apreciando de forma mais expressiva, tendo se aproximado dos 5,30 nas últimas semanas.

Meus exercícios econométricos apontam que a desvalorização do real de mais de 20% ao longo de 2024 reduziu a taxa de aprovação do governo brasileiro em mais de dez pontos percentuais. Isso decorreu não somente de um efeito direto da oscilação da moeda (sua variação e nível correspondem a uma espécie de “termômetro” do status da economia para boa parte da população), mas também de seus efeitos indiretos, sobre a inflação. Vale notar que os preços dos alimentos são muito mais sensibilizados pelo câmbio do que os preços dos bens industriais e dos serviços.

Logo, a “devolução”, ao longo de 2025, de boa parte da desvalorização observada em 2024 explica uma parte relevante da melhora da aprovação presidencial. No fundo, Trump impulsionou a recuperação da popularidade de Lula –mas muito mais por esse canal do câmbio do que pelo fator “defesa da soberania nacional”.

O que podemos esperar daqui em diante? As projeções de consenso do mercado indicam que o R$/US$ deve caminhar para perto de 5,45 até o final deste ano e para 5,60 em dezembro de 2026. Contudo, os analistas domésticos, de forma meio “mecânica”, quase sempre projetam desvalorização do R$/US$.

Não podemos descartar a possibilidade de que o dólar norte-americano sofra novas desvalorizações. Kenneth Rogoff, um dos economistas mais respeitados da atualidade, apontou em entrevista recente que o dólar norte-americano pode se desvalorizar outros 5% a 10% nos próximos anos por conta das políticas de Trump.

Uma perda de valor do dólar dessa ordem de grandeza poderia levar o R$/US$ para algo entre 4,60 e 4,90, nas minhas contas (considerando apenas esse condicionante, ignorando os demais).


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Fonte: Link da fonte

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