Os mercados preditivos que até pouco tempo circulavam à margem do radar regulatório brasileiro começaram a ganhar espaço nas conversas do mercado financeiro.
A discussão veio à tona no Congresso Internacional Planejar 2026. Especialistas defendem que o produto tem potencial para se tornar mais uma ferramenta de proteção de carteira, mas exige uma cautela redobrada por parte de quem o oferece ao investidor pessoa física.
O cenário foi mudando graças a Resolução CMN nº 5.298 que permitiu avanços nas regras para os mercados derivativos, que dependem de fatos específicos e não da dinâmica dos ativos tradicionais.
“A resolução acabou avançando o mercado de preditivos, mercados relacionados a eventos puros”, explicou Marina Copola, diretora da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Ela lembrou que os contratos preditivos chegaram a ficar conhecidos como “contratos Taylor Swift”, por surgirem na época do casamento da cantora. No Brasil, contratos ligados a entretenimento foram excluídos da lista de ativos ofertados, pela dificuldade de controlar e supervisionar este tipo de produto, segundo Copola.
O papel da B3 nos mercados preditivos
Já entre as iniciativas da bolsa de valores brasileira existe uma tentativa de proximidade com a CVM para a construção de um mercado seguro. “A B3 trabalha muito em conjunto com o regulador sobre como desenvolver os mercados de forma mais segura, evitando insiders e manipulação de preço”, afirmou Marcos Skistymas, diretor de produtos listados da B3.
Para ele, o avanço da tecnologia trouxe um efeito colateral que é a facilidade de acesso a plataformas internacionais sem a mesma proteção que existe no mercado nacional.
“A tecnologia facilitou tanto que tomar a decisão de investir no mercado internacional, onde a CVM não tem alcance de regulação, é um clique de diferença. É um fluxo que está indo para fora, mas não temos como dar essa proteção ao investidor”, ponderou Skistymas.
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24 horas por dia e 7 dias na semana
Um dos aspectos debatidos no painel foi o horário de funcionamento dos mercados preditivos, que diferente da bolsa tradicional, já operam no exterior em regime contínuo. O questionamento é se a B3 vai aderir a este formato e repensar os seus horários de funcionamento.
“Estamos repensando não apenas para o mercado preditivo. Para nós operar 24 horas por dia e 7 dias na semana já é uma realidade”, destaca Skistymas.
Ele cita como exemplo notícias envolvendo o vaivém do petróleo com o fechamento do estreito de Ormuz, em que muitas pessoas foram negociar no mercado não regulado, sem supervisão. Para Skistymas, as pessoas sempre encontrarão um caminho para acessar investimentos. “A grande dúvida é se estamos protegendo o investidor ou abandonando ele”, aponta o diretor de produtos listados da B3.
Para Marcio Yassuhiko Kimura, head da Itaú Corretora, talvez o mercado não está preparado do ponto de vista operacional para adotar o formato 24/7. “Não temos pessoas atendendo o tempo todo. Ou seja, se o investidor tiver algum problema em determinado horário, não terá quem possa ajudar”, observa.
Segundo Kimura, tanto B3 quanto CVM exigem ter esse canal de emergência do investidor.
Mercado preditivo e planejamento financeiro
Segundo os especialistas, os mercados preditivos podem servir como termômetro de decisões de alocação. Kimura citou como exemplo as correlações entre ativos como dólar, bolsa, juros como ponto de partida para estratégias de proteção. “Se estou comprando títulos prefixados, posso fazer uma proteção nos mercados preditivos”, comenta.
Para Kimura, pode ser uma alternativa mais barata para o investidor pessoa física, mas o acesso fica mais restrito ao investidor profissional. “O mercado preditivo não vai resolver a vida de ninguém, mas vai complementar a gama de possibilidades que o investidor pessoa física tem”, ponta.
Efeito manada
Marina Copola alerta sobre dois perfis no mercado. Tem quem aposta no mercado preditivo acreditando no resultado e quem utiliza o instrumento seguindo o que os outros acham que vai acontecer. Contudo, ela destaca que é importante distinguir quando um preço de ativo reflete assimetria de informação genuína ou manipulação.
O receio, segundo Copola, é acontecer um efeito manada como foi o caso GameStop. Para a diretora da CVM, o determinado desfecho de uma companhia em particular é um pouco mais possível de influenciar estes mercados. Contudo, destaca que com regras bem estipuladas, os mecanismos utilizados em outros mercados regulados podem ser aplicados aos instrumentos preditivos.
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