EUA perdem força na disputa global por talentos – 23/08/2026 – Ciência

Quem tem o talento?

Na disputa pela supremacia científica e tecnológica, essa pergunta é a que mais se destaca. Não faz muito tempo, a resposta era uma só: os Estados Unidos, e embora continuem sendo o principal destino mundial para os cientistas mais ambiciosos, a combinação de cortes de verba, políticas restritivas de imigração e desconfiança em relação aos nascidos na China está comprometendo essa vantagem justo quando os asiáticos, apesar das próprias falhas graves, está se tornando uma alternativa cada vez mais viável.

O apelo dos dois países ficou claro em dois eventos recentes: entre os quatro vencedores da Medalha Fields 2026, uma das maiores honrarias da matemática, estavam dois estudiosos chineses que vieram para os EUA para estudos avançados, e não só se destacaram como continuam no Ocidente.

Além disso, temos o caso de Zhilin Yang. Como muitos conterrâneos, ele veio para os EUA fazer pós-graduação, mas em vez de ficar, voltou para casa para fundar a Moonshot AI —e em julho, a empresa lançou um modelo de IA de código aberto impressionante, o Kimi K3, que chega perto do desempenho dos melhores modelos norte-americanos, a um custo menor.

Quando concluiu o doutorado pela Carnegie Mellon, em 2019, não lhe faltaram oportunidades, mas ele disse a Ruslan Salakhutdinov, professor de ciência da computação e seu orientador, que já tinha decidido abrir uma empresa em seu país. “Os EUA ainda têm uma vantagem enorme, atraem os melhores profissionais, mas a China vai se tornar mais interessante. Já dá para perceber isso muito bem, principalmente na área de IA.”

A China também vem recrutando mais cientistas acadêmicos estrangeiros —como Omar Yaghi, que dividiu o Prêmio Nobel de Química do ano passado e saiu da Universidade da Califórnia em Berkeley para ir para a Universidade de Tsinghua, onde vai liderar um instituto que usa IA para acelerar a descoberta de novos materiais. Desde o ano passado, universidades na porção continental e em Hong Kong receberam pelo menos oito matemáticos de destaque de instituições ocidentais. Um deles é Joshua Zahl, colaborador de Hong Wang, um dos vencedores da Medalha Fields deste ano, que assumiu o cargo de professor em tempo integral na Universidade de Nankai. Ele preferiu não comentar a mudança.

Essas são conquistas significativas para uma nação onde durante muito tempo Tu Youyou foi a única cientista a ter recebido um Prêmio Nobel em uma categoria científica.

“A maior mudança no poder de recrutamento chinês é o dinheiro. Há 20 anos, o que se esperava era que os cientistas de volta do exterior fizessem sacrifícios financeiros em nome do serviço ao país; agora, as universidades locais têm condições de oferecer salários competitivos com os da Europa, além de pacotes de relocação generosos”, explicou Dong Jielin, pesquisadora de políticas de ciência e tecnologia na China.

Apesar disso, depois do anúncio dos vencedores da Medalha de Fields, uma dúvida surgiu na ampla cobertura da imprensa chinesa e na enxurrada de discussões on-line: será que o sistema acadêmico asiático consegue dar aos jovens pesquisadores ainda não consagrados a liberdade, a paciência e a tolerância ao fracasso de que precisam para se destacarem?

Os dois vencedores chineses, Wang e Yu Deng, entraram na Universidade de Pequim em 2007; o segundo, medalhista de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática, entrou direto na faculdade. Depois de dois anos, pediu transferência para o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, em inglês), fez doutorado em Princeton e assumiu como professor da Universidade de Chicago.

Segundo ele, o doutorado no exterior era comum entre os estudantes chineses de ciências exatas naquela época. “De lá para cá o campo na China melhorou muito, e as publicações dos nas principais revistas do campo aumentaram significativamente.”

A China está quase conseguindo equiparar a verba e a infraestrutura que atraem cientistas de destaque; ainda é difícil, porém, reproduzir a liberdade, a confiança e a estabilidade institucional que permitem o desenvolvimento dos jovens talentos. Nesses aspectos, os EUA continuam levando vantagem, ainda que ameaçados pelas políticas atuais do país. “Era, tipo, a escolha padrão, a opção óbvia”, confirmou Terence Tao, medalhista da Fields nascido na Austrália e professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles, por vídeo.

No ano passado, a suspensão da verba federal promovida pelo governo Trump afetou tanto sua bolsa pessoal como o instituto de que é um dos líderes, e só foi restabelecida depois de uma ação judicial. “O que acontece é que essas interrupções bruscas podem atrapalhar projetos que estão em desenvolvimento há anos, e abala a confiança dos pesquisadores no sistema. O primeiro pensamento dos melhores e mais brilhantes talvez já não seja vir para cá, como aconteceu durante décadas.”

Os estudantes estrangeiros receberam quase 44 por cento dos doutorados em áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (Stem, em inglês) concedidos pelas universidades norte-americanas em 2023, sendo que os chineses conquistaram 17% de todos os doutorados em ciências e engenharia em 2020; de acordo com um estudo de 2023, cerca de 87% dos chineses que receberam o título entre 2005 e 2015 tinham a intenção de ficar no país.

No entanto, as condições nos EUA já estão tornando esse fluxo menos confiável; em 2025, o número de vistos emitidos para estudantes de fora caiu aproximadamente um terço; e em julho, a administração Trump aprovou uma regra para limitar o tempo que podem permanecer no país sem solicitar extensão. Durante o anúncio, o secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, destacou que a medida “os manteria focados no objetivo principal, ou seja, concluir os estudos e voltar para casa”.

Deng, de 37 anos, ganhador da Medalha Fields de 2026, disse que muitas universidades chinesas, norte-americanas e de outras partes do mundo o procuraram, mas está avaliando suas opções e vai ficar na Universidade de Chicago por enquanto. “Minha pesquisa, meus colaboradores e minha qualidade de vida certamente vão pesar na minha decisão.”

Ao ser perguntado se viria para os EUA se tivesse 20 anos hoje, ele mencionou os cortes na verba para pesquisa e o que sabe sobre as pessoas afetadas por problemas com vistos. “Se eu tivesse de tomar essa decisão hoje, pensaria duas vezes antes de vir para cá”, admitiu.

Fonte: Link da fonte

Tags

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore