Histórias podem ter ajudado a ampliar cooperação humana – 25/10/2026 – Ciência

Em uma caverna da ilha de Sulawesi, na Indonésia, um painel de pelo menos 51,2 mil anos é considerado a primeira imagem narrativa, que conta uma história. A cena, de 4,5 metros de largura, mostra humanos interagindo com um porco e pequenos bovídeos.

A cena parece representar uma caça. Porém, há também a interpretação de que os humanos da figura exibem atributos de animais não humanos, o que sugere uma narrativa imaginativa.

Jean Senhorinho, doutor em filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), diz que a universalidade do envolvimento de humanos com histórias tem eixo horizontal e vertical, ou seja, está presente em todos os lugares e desde, pelo menos, 50 mil anos atrás.

Uma hipótese levantada pelo antropólogo britânico Robin Dunbar relaciona o gosto pelas histórias à ampliação da cooperação humana. A fofoca, por exemplo, ajuda a fortalecer uma relação de confiança entre as pessoas, enquanto o mito propaga histórias que dizem respeito a todas as pessoas do grupo, segundo o professor de teoria literária Pedro Dolabela Chagas, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Um estudo publicado na revista Nature em 2017 concluiu que a contação de histórias entre uma população caçadora-coletora chamada Agta, das Filipinas, estava relacionada a uma maior cooperação. As histórias contadas por eles transmitiram normas e princípios que regulavam cooperação e comportamento social.

Chagas destaca que as histórias permitem ainda que os humanos lidem com sua imaginação. “Somos seres ansiosos porque temos consciência da existência do futuro ou somos direcionados ao futuro, e o futuro a gente não controla. Então, essa capacidade de imaginar cenários alternativos, especialmente os piores cenários, é fundamental para nossa orientação do presente.”

O professor ressalta que as hipóteses evolutivas, apesar de cada vez melhores e mais robustas, são deduções a partir de algumas evidências de passados distantes.

Senhorinho acrescenta outras hipóteses que visam explicar a naturalidade humana para as narrativas, como sua contribuição para a formação da identidade social e fazer com que os mesmos valores sejam mais disseminados em um grupo.

As histórias servem também como balanceadores psicológicos, em um mundo repleto de tensões, onde existe uma distância entre o que o indivíduo quer e a realidade. “As histórias poderiam ser um meio importante para a gente processar isso, para encontrar um equilíbrio emocional”, pondera Senhorinho.

Uma habilidade adaptativa?

A presença das histórias já em um passado distante da humanidade é um enigma. Elas reuniam pessoas para dedicar atenção e tempo a situações que não aconteceram em um momento crítico da sobrevivência humana. Por isso, devem ter trazido alguma vantagem.

Isso não significa que surgiram como uma adaptação natural, ou seja, uma característica favorecida pela seleção natural que ofereceu à espécie uma vantagem específica de sobrevivência e permaneceu, diz Senhorinho.

Em vez disso, a habilidade pode ter vindo a partir do desenvolvimento da capacidade para linguagem, imaginação e representação. Mas histórias são adaptativas e, por isso, seus benefícios aos humanos são consequência de seu surgimento, e não causa.

Abundância de narrativas

Segundo Pedro Chagas, hoje há uma “abundância” de narrativas. A própria TV é uma “máquina de histórias”. Enquanto isso, “uma vida muito ligada à própria subsistência é uma vida de menos contação de história, e a história acontecia em certo momento”, compara o professor.

A proliferação de histórias é, ao mesmo tempo, causa e consequência de um cenário que ele chama de “aceleração cultural”. Com o surgimento do romance no século 18, com personagens individualizados capazes de fazer escolhas, a produção ficcional aumenta.

“Esse mundo mais cheio de variação vai também gerar mais interesse por ficção e ficções diferentes para lidar com nichos cada vez mais diferentes de público”, diz. Mesmo fora do campo da ficção, narrativas provocam reações, que, por sua vez, geram contranarrativas.

Efeitos no corpo

Uma pesquisa publicada em 2024 mostra que durante a contação de história há o alinhamento cerebral entre o contador e o ouvinte e entre os ouvintes. Quanto mais o cérebro dos ouvintes espelhava o do falante, mais eles se agrupavam entre si, como ovelhas sendo guiadas por um pastor, diz o artigo.

Uri Hasson, que coordena na Universidade de Princeton um laboratório sobre o fenômeno, compara o alinhamento cerebral com um sistema de comunicação sem fio em que há transmissão de um sinal entre dois cérebros por meio de um ambiente físico compartilhado. Quanto mais forte for o alinhamento, melhor a compreensão do que está sendo dito.

Outra pesquisa publicada em 2021 indica que pessoas lembram e compreendem melhor histórias do que textos expositivos. O artigo analisou 65 amostras com dados de mais de 33 mil participantes.

Vitor Haase, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia que isso acontece porque a história propicia a atribuição de significados.

O docente afirma que algumas pessoas neurodivergentes têm dificuldade com pensamentos narrativos. Isso contribui para que fiquem ansiosas em situações sociais, já que esse pensamento ajuda a avaliar possíveis cenários e como agir neles.

A doutoranda da UFMG Lia Constantino Criscoullo, especialista em narrativas, tem elaborado um projeto com crianças neurodivergentes para ajudá-las a construir significados para suas experiências. Para isso, elas formulam suas narrativas, que são transformadas em material visual com inteligência artificial.

Os impactos disso ainda estão sendo observados, mas ela conta que, na prática clínica, as crianças têm demonstrado maior repertório para interpretar situações. “Nas narrativas, a pessoa encontra personagens com objetivos diferentes, que lidam de formas distintas com um mesmo problema e chegam a desfechos variados”, diz Lia.

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