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Não devemos ignorar os ‘Jogos Olímpicos dos Dopados’ – 29/05/2026 – Marina Izidro

Na transmissão ao vivo, o gráfico mostrou: “90,5%, testosterona; 78,6%, hormônio de crescimento; 61,9%, moduladores metabólicos, 40,5%, eritropoetina…”. E por aí vai.

Parecia relatório da Wada (Agência Mundial Antidoping). Era o que os participantes dos Enhanced Games —ou Jogos Turbinados— haviam tomado. Os próprios organizadores compartilharam com orgulho a informação, neste que também pode ser chamado de Jogos Olímpicos dos Atletas Dopados. O evento foi um fiasco, mas deixa um alerta para o esporte.

Assisti ao show de horrores, transmitido no YouTube da competição. Nos Enhanced Games, competidores eram encorajados a se dopar. Em troca, muito dinheiro: US$ 250 mil para o vencedor e mais US$ 1 milhão caso “quebrasse” um recorde mundial oficial —que, claro, não valeria oficialmente.

Quase sete horas de competições de natação, atletismo e halterofilismo, com 42 atletas, incluindo o nadador brasileiro Felipe Lima, 41 anos —que não ganhou, aliás. Tudo parecia amador: atletas levantando 150 kg debaixo do sol, nadando na piscina com quatro raias (a olímpica tem oito). Os uniformes não tinham a bandeira do país e, sim, o símbolo do evento, que parece a bandeira da Grécia ao contrário. Na plateia, meia dúzia de gatos pingados.

Em um estilo totalmente americanizado, apresentadores e comentaristas tentavam levantar a bola dos jogos, usando termos exagerados como “histórico”, “heroico”, criando fake news sobre como drogas poderiam ajudar na longevidade humana. Repórteres, com vestidos curtos e justos, entrevistavam os vencedores, tentando disfarçar a decepção depois que, a cada prova, não havia nenhuma quebra de recorde.

Algumas, inclusive, foram vencidas por quem escolheu não se dopar. Fiquei surpresa de ver Brett Hawke à beira da piscina. O técnico que ajudou César Cielo a bater o recorde mundial nos 50m livre em 2009 —marca que durou até março deste ano— trocou de lado e agora treina os drogados. Uma nadadora confessou que foi avisada de que sua fertilidade estaria em risco. Todo mundo tem seu preço.

Organizadores certamente respiraram aliviados quando, na última prova, o grego Kristian Gkolomeev “quebrou” o recorde mundial dos 50m livre, que pertence ao australiano Cameron McEvoy, nadando 0.07s mais rápido, em 20.81s. Além de doping, usou um traje tecnológico, há anos proibido. A imprensa mundial questiona se o cronômetro não estava sincronizado e teria parado antes de ele tocar na borda.

Apesar do circo de horrores, é perigoso que gestores ignorem os Enhanced Games, que exploraram um ponto crítico do esporte olímpico: a falta de apoio. Nas entrevistas, atletas, alguns com os anéis olímpicos tatuados, disseram que nunca tinham sido tão bem tratados em suas carreiras. Que as ajudas médica e financeira foram incríveis. Que tinham a chance de ganhar um dinheiro que nunca conseguiram em décadas de dedicação ao esporte limpo.

Há um abismo entre o futebol de elite e os outros esportes. Por isso sou tão a favor de que a premiação em dinheiro iniciada pelo atletismo em Jogos Olímpicos se espalhe para o restante. Os Enhanced Games foram uma ideia bizarra e errada. Mas eles prometem voltar no ano que vem. E, se fecharmos os olhos, podem passar a não ser apenas uma piada de mau gosto.


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