Dois agricultores cultivavam plantações semelhantes, lado a lado. Todos os meses, um deles observava com inveja que a colheita do vizinho era maior que a sua. Passou a estudar o tipo de semente que ele utilizava, a direção do vento, a quantidade de sol que cada terreno recebia e até o formato dos canteiros.
Havia, porém, um detalhe que ele ignorava: enquanto gastava cada vez mais tempo tentando descobrir o segredo da colheita alheia, deixava de regar, adubar e cuidar da própria terra.
Com o passar dos anos, a diferença entre as duas plantações aumentou ainda mais. Não porque o vizinho tivesse encontrado uma semente milagrosa, mas porque compreendia algo muito simples: a qualidade da colheita depende tanto da semente quanto da manutenção constante da lavoura.
No mercado financeiro acontece exatamente a mesma coisa.
Milhões de investidores acompanham diariamente a rentabilidade das próprias carteiras e, muitas vezes, a dos outros também. Comparam fundos, ações, recomendações e rankings, sempre em busca de quem conseguiu um retorno um pouco maior.
Enquanto isso, acabam negligenciando um fator que costuma exercer influência ainda maior sobre o patrimônio acumulado ao longo da vida: a disciplina de realizar aportes frequentes.
A construção de patrimônio financeiro depende de três pilares básicos: o patrimônio inicial, os aportes realizados durante a jornada e a rentabilidade obtida sobre esse capital. O curioso é que dedicamos quase toda a nossa atenção justamente ao único desses fatores que não controlamos plenamente.
Folha Mercado
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O patrimônio inicial pertence ao passado. A rentabilidade dependerá, em grande medida, do comportamento dos mercados. Já os aportes dependem quase exclusivamente das nossas decisões. São fruto da organização financeira, da capacidade de poupança e, principalmente, da disciplina. Ainda assim, costumam ser tratados como um detalhe. Essa percepção muda quando fazemos uma conta simples.
Imagine um investidor que comece com R$ 100 mil. Se ele nunca mais fizer um único aporte e obtiver um retorno equivalente ao CDI médio dos últimos vinte anos, terminará esse período com aproximadamente R$ 672,7 mil.
Agora imagine que esse mesmo investidor mantenha a disciplina de aportar R$ 3.000 por mês durante essas duas décadas. Além de acrescentar R$ 720 mil do próprio bolso, seu patrimônio poderá alcançar cerca de R$ 2,8 milhões. A lição é clara: os juros compostos são extraordinários, mas precisam de combustível. E esse combustível são os aportes frequentes.
Os aportes oferecem ainda um benefício menos percebido: ajudam a melhorar a própria rentabilidade da carteira. Ao investir regularmente, o investidor compra ativos em diferentes momentos do mercado. Em alguns meses, pagará caro. Em outros, comprará os mesmos ativos com desconto.
Ao longo do tempo, reduz o preço médio de aquisição e diminui o risco de concentrar todo o patrimônio justamente nos períodos de maior euforia. Em vez de tentar prever os movimentos do mercado, transforma a volatilidade em uma aliada.
Essa talvez seja a maior inversão de prioridades observada entre investidores. Muitos passam anos procurando uma estratégia capaz de aumentar a rentabilidade anual em um ou dois pontos percentuais, mas dedicam muito menos esforço para elevar sua capacidade de poupança ou automatizar seus aportes mensais. No longo prazo, aumentar consistentemente o valor investido costuma produzir um impacto maior sobre o patrimônio do que acertar, ocasionalmente, o investimento que mais se valorizou.
A ideia dialoga com o pensamento de Aristóteles, para quem a excelência é resultado dos hábitos, e não de atos isolados. A construção de patrimônio segue a mesma lógica. Ela raramente nasce de uma decisão brilhante. É consequência de comportamentos corretos repetidos durante décadas.
A rentabilidade continuará sendo importante. Ela acelera o crescimento do patrimônio. Mas são os aportes frequentes que alimentam esse crescimento e permitem que ele se sustente ao longo do tempo.
Antes de perguntar quanto sua carteira rendeu neste mês, talvez valha fazer uma pergunta ainda mais importante: quanto você conseguiu acrescentar a ela? A resposta provavelmente dirá muito mais sobre o tamanho do seu patrimônio futuro do que qualquer previsão sobre os próximos movimentos do mercado.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.
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