O rover Perseverance, da Nasa, já percorreu uma distância maior do que qualquer outro veículo no Sistema Solar —exceto os que estão na Terra, é claro.
No último domingo (11), o odômetro do veículo ultrapassou a marca de 45 quilômetros, a soma do que ele percorreu dentro e nos arredores da cratera Jezero desde que pousou em Marte, em fevereiro de 2021.
O número supera a marca do Opportunity, outro rover da Nasa que operou de 2004 a 2018, até deixar de enviar sinais.
O Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, responsável pela operação do rover, anunciou o recorde nesta segunda-feira (12), após confirmar a localização do Perseverance e a nova distância percorrida.
Os responsáveis pela missão diziam acreditar que o Perseverance alcançasse a marca ainda em agosto. Mas houve uma mudança de planos, já que o veículo encontrou intrigantes rochas de coloração clara que podem estar entre as mais antigas já estudadas em Marte. E, por isso, demorou-se ali por dois meses.
“A ciência é a razão pela qual esse veículo está na superfície de Marte”, afirmou Katie Stack Morgan, cientista do projeto, em uma entrevista no início de outubro. “Estamos ansiosos para bater o recorde quando isso acontecer. Mas, enquanto isso, são as rochas que realmente ditam os rumos da missão.”
O Perseverance muito provavelmente ainda terá muitos quilômetros a percorrer nos próximos anos.
Antes do lançamento, a Nasa havia certificado que o Perseverance era capaz de percorrer 20 quilômetros.
Agora, a agência trabalha para ampliar a certificação para 100 quilômetros.
Confira alguns dos destaques de sua jornada até agora.
Primeira parada: cratera Jezero
Em 18 de fevereiro de 2021, o Perseverance pousou na cratera Jezero, em Marte, uma depressão de 48 quilômetros de largura que havia sido um lago quando o planeta vermelho era mais quente e úmido, nos primórdios do Sistema Solar.
O desenho no paraquedas que desacelerou Perseverance durante sua descida pela atmosfera marciana continha uma mensagem secreta: “Ouse realizar grandes feitos”.
Voo em Marte
Entre as primeiras tarefas da missão estava uma que praticamente não exigia deslocamento algum.
Acomodado sob a parte inferior do Perseverance, havia um pequeno helicóptero chamado Ingenuity.
Depois de ser colocado sobre a superfície marciana, o Ingenuity realizou os primeiros voos controlados e motorizados em outro planeta.
Enquanto isso, Perseverance permaneceu nas proximidades para observar e também retransmitir à Terra os dados enviados pelo helicóptero.
Os quatro voos de teste foram tão bem-sucedidos que os responsáveis pela missão decidiram que o Ingenuity deveria acompanhar Perseverance em sua exploração de Marte.
O Ingenuity realizou 72 voos, até que uma de suas pás do rotor se quebrou em janeiro de 2024.
Direção autônoma à prova
O Perseverance passou boa parte de seu primeiro ano percorrendo o leito da cratera Jezero, formado por rocha que derreteu e depois se solidificou após o impacto do meteoro que criou a cratera.
Assim como alguns dos carros mais modernos da Terra, o Perseverance usa tecnologia de direção autônoma para descobrir como ir do ponto A ao ponto B sem receber da Terra instruções detalhadas sobre cada mudança de direção.
Graças a um chip adicional e mais rápido, ele é ainda melhor nisso do que seu quase gêmeo, o rover Curiosity, que pousou mais de oito anos antes e percorreu uma distância menor. (O Curiosity, que está subindo uma montanha, também não tem tanta pressa.)
As capacidades do Perseverance, que tem o tamanho de um carro pequeno, fazem parecer insignificante o que o Sojourner, o primeiro veículo robótico da Nasa, conseguia fazer em 1997.
Ao longo de 12 semanas, aquele veículo percorreu 103 metros e só era capaz de executar exatamente os comandos que recebia. Certa vez, ficou encalhado, com uma das rodas suspensa e presa contra uma rocha, porque seu operador calculou mal a distância.
“É uma diferença enorme”, disse Matthew Wallace, engenheiro do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, ao comparar o trabalho complexo que uma equipe de engenheiros na Terra precisava realizar apenas para planejar um pequeno deslocamento do Sojourner com o que o Perseverance consegue fazer sozinho.
Rios, rochas e cordilheiras
Depois de explorar o fundo da cratera, a etapa seguinte da jornada do Perseverance foi seguir até o delta de um antigo rio situado ao longo da cratera, aonde chegou em abril de 2022.
O local era considerado promissor para a busca de indícios de vestígios orgânicos, caso algum dia tenha existido vida em Marte. Essa foi a principal razão que levou a Nasa a escolher a cratera Jezero como destino do Perseverance.
Além de Jezero
Desde então, o Perseverance subiu e saiu de Jezero e agora explora rochas com cerca de 4 bilhões de anos em uma região conhecida como Lac de Charmes, assim chamada em referência a um reservatório na França. Rochas-matrizes tão antigas não são encontradas na Terra, porque a tectônica de placas empurra continuamente a crosta continental para o interior do planeta.
“O que o Perseverance está nos proporcionando é, de fato, um vislumbre dessa fase muito inicial da história do Sistema Solar, algo como seus primeiros 500 milhões de anos”, afirmou Vivian Sun, vice-cientista interina do projeto. “Há muito que podemos aprender com essas rochas.”
Entre elas estão as rochas de cor clara que intrigam os cientistas da Nasa desde agosto.
A maior parte da crosta marciana é composta de basalto, uma rocha vulcânica de granulação fina e cor cinza-escura. (A tonalidade avermelhada de Marte vem da poeira. Quando as rochas sofrem intemperismo, o ferro presente nos minerais enferruja.)
“Por isso, sempre que vemos algo com uma tonalidade nitidamente clara, isso chama a atenção”, disse Stack Morgan.
Na extremidade norte de um vale em Lac de Charmes, os cientistas avistaram um conjunto de rochas claras, e o rover fez um desvio para examiná-las.
As rochas claras são conhecidas como gabros —rochas vulcânicas de granulação grossa, semelhantes ao basalto em sua composição, mas que provavelmente se formaram em maior profundidade, onde o magma esfriou mais lentamente, permitindo a formação de cristais maiores.
“Temos observado nessas rochas evidências de derretimento e choque extremamente intensos, e isso é exatamente o que esperamos encontrar em rochas muito, muito antigas, anteriores à formação de Jezero, que representam a crosta de Marte”, disse Stack Morgan.
Os cientistas dizem acreditar que os blocos de rocha possam ser resultado de três impactos distintos de meteoritos —um que derreteu a crosta marciana e produziu o gabro, um segundo que criou padrões de choque e mais derretimento, e um terceiro que os lançou até sua localização atual, nos arredores de Jezero.
O Perseverance tentou perfurar uma das rochas, porém ela era dura demais para a coleta de uma amostra.
A Nasa ainda não definiu planos de longo prazo sobre para onde enviar o Perseverance depois que ele concluir a exploração da região atual.
Em algum momento, a agência precisará decidir o que fazer com as amostras de rocha que o Perseverance transporta.
Uma iniciativa conhecida como Mars Sample Return, que teria trazido essas amostras de volta à Terra, foi cancelada porque a missão —que seria uma colaboração entre a Nasa e a Agência Espacial Europeia (ESA)— foi considerada cara demais.
A Nasa poderia retomá-la como uma missão comercial, mas ainda não fez nenhum anúncio.
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