Desde antes do russo Iuri Gagarin se tornar a primeira pessoa no espaço, o Brasil já possuía planos de exploração espacial. Naquele mesmo ano de 1961 em que o cosmonauta orbitou a Terra no voo histórico de 108 minutos no dia 12 de abril, foi criada a semente do que viria a ser o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o Grupo de Organização da Comissão Nacional de Atividades Espaciais (Gocnae). Por que então ainda não há um foguete com tecnologia 100% nacional capaz de chegar à órbita da Terra?
“Eu diria que o sucesso na atividade espacial sorri para aqueles que não desistem. É uma atividade muito difícil, exige recursos, e isso politicamente às vezes é difícil de manter e de convencer as pessoas, que pensam ‘poxa, mas para que tantos recursos?”, diz Rogério Luiz Veríssimo Cruz, diretor de Governança do Setor Espacial da Agência Espacial Brasileira (AEB).
O orçamento da AEB vem de sequências de queda. O auge dos investimentos foi entre os anos de 2004 e 2006, quando atingiu a casa dos R$ 500 milhões ao ano. Em 2022, chegou a beirar os R$ 110 milhões. Para este ano, estão previstos R$ 139 milhões.
O Brasil teve um trauma no setor, quando, em 22 de agosto de 2003, a explosão do foguete VLS-1 V03 no Centro de Lançamento de Alcântara levou à morte de 21 pessoas. “No setor espacial, a palavra é insistir, porque desistir não é uma opção. É necessário entender que o risco é elevado e que os recursos necessários são vultosos”, diz Veríssimo Cruz, da AEB.
Uma das apostas da AEB é em parcerias com outros países. Por exemplo, desde 2021, o Brasil é signatário do programa Artemis, da Nasa, o mesmo da Artemis 2, a primeira missão tripulada à Lua neste século.
A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) promove um estudo para produzir alimentos espaciais, capazes de suprir futuros astronautas. O projeto é o space farming (agricultura espacial).
“Esperam-se avanços tecnológicos no cultivo de batata-doce e de grão-de-bico em ambiente fechado, com economia no uso de água e energia, uso de sensores, acompanhamento de cultivo por câmera, automação e aprendizado de máquina, sendo uma forma de cultivo sustentável que pode ser usado tanto na Terra, seja em grandes cidades ou em áreas vulneráveis aos riscos causados pelas mudanças climáticas, quanto no espaço”, resume a pesquisadora e coordenadora da Rede Space Farming Brazil, Alessandra Fávero.
“Nossa parceria com a China é outro exemplo de cooperação internacional muito relevante, porque permitiu desenvolver uma série de tecnologias, principalmente na área de câmeras, e possibilita todo esse trabalho que o Inpe faz de estatísticas com relação a desmatamentos, queimadas na região amazônica e no cerrado”, acrescenta Veríssimo Cruz, da AEB.
Espaço privado
Outro foco atual da AEB é em parcerias com empresas do setor privado. O Microlançador Brasileiro (MLBR), que ambiciona ser o primeiro foguete nacional de alcance orbital, é fruto de um arranjo produtivo formado por cinco empresas nacionais, lideradas pela Cenic Engenharia, cuja operação fica em São José dos Campos, no Vale do Paraíba (SP).
O contrato de R$ 189 milhões tem como objetivo a criação de um foguete de 12 metros de altura, 1,1 metro de diâmetro, com três motores movidos a propelente sólido, e capacidade de carga de 40 quilos em uma órbita de 450 quilômetros de altitude. Em comunicado oficial, a Cenic indica que o MLBR visa suprir a “demanda crescente do mercado global por lançamentos de pequenos satélites com aplicações comerciais em áreas como telecomunicações, agricultura, meio ambiente, dados, segurança, localização e monitoramento”.
Ralph Correa, diretor da Cenic, afirma que o “objetivo é inserir o Brasil no mercado global de serviços de lançamento, começando pelo segmento de satélites de pequeno porte, que já apresenta demanda consolidada, e evoluindo gradualmente para veículos maiores”. Ele compara ao caminho trilhado pelo país no passado com a criação da Embraer. “Iniciamos com aeronaves menores, já competitivas no mercado, e hoje somos o terceiro maior fabricante mundial de aviões comerciais.”
Hoje, a AEB tem como um dos focos fomentar iniciativas privadas. Veríssimo Cruz compara com o cenário nos EUA: “O objetivo é mobilizar a indústria nacional para estar capacitada a participar do que a gente chama de ‘new space’. É uma nova era no setor espacial, em que o Estado tem um protagonismo menor e a área comercial e empresarial entra com mais relevância. Um exemplo notório é a SpaceX, que transformou o mercado e continua sendo referência para outras empresas mundo afora”.
Uma diferença notória é que a SpaceX, fundada e comandada pelo homem mais rico do mundo, Elon Musk, tem uma receita anual na casa dos US$ 15 bilhões, frente ao orçamento de R$ 139 milhões (US$ 27,7 milhões) de toda a agência espacial brasileira. Já o da Nasa, a agência espacial dos EUA, está no patamar dos US$ 24 bilhões no ano.
Uma das consequências dessa desigualdade nos investimentos é a fuga de cérebros de cientistas e pesquisadores da área para os EUA. Existem brasileiros em postos-chave na Nasa, como a geóloga planetária Rosaly Lopes, cientista sênior do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), e o engenheiro Ramon Perez De Paula, executivo do Programa de Exploração de Marte.
No programa com foco em Marte, outros brasileiros já colaboraram com a missão, como os cientistas Jaqueline Lyra e Nilton Rennó. Não há um número oficial de brasileiros que trabalham com a Nasa, mas se sabe que são dezenas deles.
A Agência Espacial Brasileira observa essa fuga de cérebros como mais um desafio para o progresso do campo científico e do mercado comercial da exploração espacial no Brasil.
Veríssimo Cruz, diretor da AEB, responde sobre o que seria necessário para reter esses talentos: “Projetos com aporte regular dos recursos necessários, porque muitas vezes o atraso no desenvolvimento acaba resultando em frustração e realmente fuga de cérebros, sendo que nessa área espacial é impossível parar”.
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