Que venha a polícia evolutiva de plantão, mas eu vou dizer: os argumentos pseudo-evolutivos para explicar “por que X existe” –onde X é esquizofrenia, depressão, calvície, barba e bigode, cólica menstrual ou o que mais o freguês desejar– são falaciosos, para não dizer besteira pura. Eu explico.
Tudo começa com a expectativa disseminada de que evolução é aperfeiçoamento por meio de adaptação movida por seleção natural –leia-se, a sobrevivência do mais apto–, 150 anos após Darwin dar a ideia. Os cientistas de poltrona, que não leram “Origem das Espécies”, não sabem que tudo o que Darwin propôs foi em prol de poder explicar como variações aparecem, em vez de toda a vida ser igual. Sem a biologia que veio a seguir, ele não tinha como saber que variações são a norma e acontecem porque tudo na vida é probabilístico: estas duas moléculas em geral são as únicas que se grudam, mas de vez em quando esta terceira vai grudar também, com resultado completamente diferente. Darwin, no escuro, saiu-se com “se variações acontecem, é porque é vantajoso variações acontecerem”.
O argumento é completamente circular, mas Herbert Spencer apareceu e cunhou a frase-chiclete “sobrevivência do mais apto”, e aí danou-se: a biologia descobriu que variações são a norma, mas, por puro hábito, ainda recorremos à explicação do “se acontece, é porque é vantajoso”.
Pelo contrário, muita gente boa leva esse argumento ao extremo. Aqui mesmo na Vanderbilt ouvi um colega, que não será nomeado, começar sua palestra sobre depressão dizendo que “se existe, deve servir para alguma coisa; para que será?”, enquanto outro senta com os alunos para discutir qual será a vantagem adaptativa de calvície por um lado, e barbas por outro.
Não, gente. Se alguma coisa é fruto de seleção natural, é nascermos com cabelos e não penas ou zero folículos capilares na cabeça, isto sim uma característica biológica da nossa espécie —e olhe lá, porque simples oportunidades genéticas ou energéticas são um argumento muito mais parcimonioso. Todos nós nascemos com cabelos. Calvície descreve o que pode ou não acontecer conforme se envelhece, só isso. Da mesma forma, barba cheia ou rala reflete genética mais variações de nível de testosterona. Calvo ou cabeludo, barbado ou não, tem gosto e lugar pra todo mundo.
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O mesmo vale para autismo, depressão, esquizofrenia, que são variações ainda viáveis de características da nossa espécie (muitas não são; um número enorme de embriões e fetos morrem antes que mulheres se dêem conta de que estavam grávidas). Meu colega tenta vender um argumento antigo de que a depressão é não só normal como vantajosa, porque leva a ruminação que supostamente poderia ajudar a resolver o problema que levou à depressão. Pergunto, então: há alguma evidência de que ruminar ajuda pessoas deprimidas a resolver seu problema? Resposta dele mesmo: não, nenhuma. Ruminar, pelo contrário, é paralisante.
Se é ruim, então por que existe? Existe exatamente como a calvície de uns mas não de todos, resultado de variação genética e de exposição às vicissitudes da existência. Só isso.
Evolução é fato, depressão também. Teoria é como a gente explica esses fatos. Não deixe ninguém vir te explicar que a sua depressão ou cólica é adaptativa. Remédio existe pra todo mundo poder ter uma vida melhor.
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